Concedida à Profa. Rosa Andraus em 1998
Comecei a dar aula na Universidade Católica de Campinas quando ela ainda não era chamada de Pontifícia, em 1973, a convite de Osmar de Paula Pinto, meu professor de Sociologia Industrial que lecionava Teoria da Comunicação – que na época se chamava Fundamentos Científicos da Comunicação. Fui convidada a dar aula como sua assistente em maio de 73. Em junho, o prof. Osmar se despediu de mim dizendo que a sala era minha e que eu tomasse conta dos alunos de Comunicação Social, porque ele estava indo para Belo Horizonte assumir uma assessoria de sociologia em um banco, que eu não me lembro se era Bradesco ou Banespa. Ele me disse que, a partir daquele momento, eu estava com as “feras”, e que eu cuidasse do curso de Comunicação Social. Foi quando realmente eu comecei minha carreira como professora universitária.
Naquela época era um curso só de Comunicação para os alunos de Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Jornalismo e Turismo. Tínhamos o mesmo número de alunos que hoje, com 100, 110 ou 120 em cada classe. Para mim foi uma experiência muito violenta, porque eu tinha largado o curso primário, no qual eu alfabetizava crianças. Isso foi em 1972, e, já no ano seguinte, comecei a lecionar em uma universidade. Para minha surpresa, os alunos eram muito tranqüilos e dava para trabalhar com eles. Mesmo assim, foi uma experiência muito violenta, porque eu tive que rever absolutamente tudo, porque não sabia nada. Comunicação para mim era ligar o rádio, escolher um livro, ouvir uma música. Minha área de formação é Ciências Sociais e minhas áreas de interesse são Sociologia e Antropologia. O professor que me convidou para lecionar na PUC-Campinas era meu professor de Sociologia Industrial, nas Ciências Sociais. Eu devo ter sido uma ótima aluna nessa área, porque ele esteve dois anos me procurando e só foi me encontrar em 1973. Ele ficou um mês comigo passando informações, seus livros… Quando eu peguei a sala para começar a lecionar, ele se despediu e eu fiquei “jogada às feras”, como ele mesmo disse.
Tive que “pegar o touro à unha”, porque eu não sabia nada. Mergulhei nos livros para procurar saber tudo, principalmente o que eram os tais Fundamentos Científicos. Naquela época não havia muitos livros e autores brasileiros. Havia mais traduções, isso sim. Era muito interessante, porque não havia no currículo uma disciplina de Teatro ou Expressão, como se tem hoje. Então a minha disciplina, Fundamentos Científicos, discutia isso. Essa disciplina trabalhava a parte teórica e, como eram aulas duplas, nós discutíamos tudo aquilo que o aluno gostava de pesquisar. Investigávamos desde quadrinhos, música, cinema, teatro. Tenho vários colegas, hoje, que na época fizeram trabalhos excelentes, analisando quadrinhos, música, fazendo teatro, programas de rádio… Fazendo análises estéticas de músicas de Chico Buarque de Holanda, porque na época Chico trabalhava muito o tema mulher, como, por exemplo, na música Carolina.
Foi uma experiência muito boa.
Quando foi inaugurado o campus 1, em 1973, o curso de Comunicação Social foi para lá. Naquela época não havia nada nesse campus. Para tomar um copo d’água era um sacrifício; não existia um lanche para se comer. Tudo era longe, havia muita poeira pela ausência de árvores e o asfalto estava sendo colocado. Tínhamos os prédios, uma secura e uma ventania danada. À noite era um frio só. Aos poucos, no entanto, fomos crescendo juntos. É até uma metáfora muito bonita: nós fomos crescendo juntos com as árvores do campus, fomos frutificando. Nós fomos vendo os frutos se desenvolvendo.
Sou professora primária, professora de segundo grau e professora universitária. Comecei meu mestrado em Filosofia, mas quando assumi a direção do IACT (Instituto de Artes, Comunicações e Turismo), eu saí do curso e perdi os créditos. Ainda penso em voltar a estudar. A minha expectativa é voltar ao mestrado e fazer alguma coisa ligada à interdisciplinaridade no contexto da Direção. Porque é um olhar completo, é um olhar interdisciplinar no sentido de ter Publicidade, Relações Públicas, Jornalismo, Turismo e Educação Artística fechados no contexto de universidade e, ao mesmo tempo, aberto para a cidade e para a comunidade toda. Eu estou na expectativa da minha orientadora, que teve um problema de saúde, e, então, este semestre já está perdido. Mas eu pretendo fazer isso com ela, esse olhar interdisciplinar na administração.
Eu sempre gostei muito de lecionar, e a experiência de trabalhar com crianças faz com que a gente tenha um olhar diferente sobre o aluno, seja ele do secundário ou o que for. Antes de vir trabalhar na Universidade eu já lecionava no colegial do Colégio Imaculada e dava aula de Comunicação para a Terceira Idade do Sesc. Ao mesmo tempo, algumas senhoras me convidaram para dar aulas de Comunicação para um grupo de mulheres casadas, com filhos já adultos, que gostariam de ter uma atualização. Daí montamos um curso chamado Atualização Feminina. Foi uma experiência muito agradável lecionar para universitários e, ao mesmo tempo, intercalando, nos períodos da tarde, dar aulas para idosos de 60, 70 e 80 anos.
Também nessa época eu ia uma vez por semana a Piracicaba para lecionar no curso de Atualização Feminina, que foi uma excelente oportunidade para eu me atualizar também. Aprendi muito com aquelas mulheres.
Crescemos muito com o avanço do campus 1. Nós víamos as árvores crescerem, os passarinhos chegando ao lado da mata e, de vez em quando, a gente via um sagüi ou um tucano. Com o crescimento do campus, a gente foi perdendo esse ar de grande fazenda. E nós fomos ficando mais firmes dentro do contexto. Hoje posso dizer que lecionar, para mim, é minha vida. Eu não diria que eu não saberia fazer outra coisa, porque eu sei fazer outra coisa. Mas lecionar é meu grande prazer.
Em 1999, estive um período doente e, quando me recuperei, recebi licença do médico para voltar à Universidade. Quando entrei na PUC-Campinas, foi a renovação, e confirmei que aquilo era a minha vida, que eu estava viva, podia recomeçar tudo outra vez. É a Universidade que me dá alento, força, planos. Lecionar para mim é isso, é passar essa experiência, discutir valores com os alunos. É passar comportamentos. Sou de uma outra geração, mas quando leciono para alunos de primeiro ano estou sempre me renovando na linguagem, na maneira, no trato, porque cada ano é uma linguagem nova. Cada ano é um grupo novo. E a gente cresce muito com isso. Eu estou com 25 anos de casa e, portanto, renovei a minha paciência. Aliás, tenho uma paciência maravilhosa. Aprendi a ser mais tolerante com aquele aluno que não pôde entregar o trabalho, com aquela menina que vem com aquela mesma desculpa… Mudou o meu olhar em relação a isso e eu acho que o aprendizado de mudar o olhar é muito importante. Deixa-se de ter aquele olhar de professor e passa-se a ter aquele olhar de mestre, que é um educador, um pouco de mãe, um pouco de irmã mais velha.
Como eu sou solteira, os meninos e as meninas conversam muito comigo. E quando bate o que eu chamo de banzo do arroz com feijão da mãe, da casa, eu sempre me coloco à disposição. No primeiro dia de aula, eu falo que sou da Pastoral Universitária e um mês, um mês e meio depois, sempre vem alguém conversar. Sempre ouço o que eles têm para dizer, e normalmente é problema de namorado, de saudade da casa, ou é um problema de estar indo por um caminho que não deveria ir. Nosso trabalho é trazer essa pessoa de volta.
Entre 1978 e 79, quando houve toda uma problemática na PUC-Campinas com relação à Reitoria, eu tinha um aluno que vinha para aula de manhã completamente dopado, totalmente pirado. Na época, nós sabíamos que aquele quadro era o resultado de um pouco de cerveja, por causa do cheiro que exalava pelos poros, e maconha. Eu conversava muito com ele; às vezes, meus colegas sugeriam que eu parasse com aquelas conversas porque chegaria uma hora em que ele iria parar. Uma vez esse aluno me disse que, quando ele parasse, eu seria a primeira pessoa a saber; até que um dia eu recebi um recado dele, que era um poema muito bonito. Ele estava na sala de aula e dormiu praticamente o tempo todo na minha aula. Mas, quando terminou a aula, ele me deu o poema, e nesse poema eu tive a impressão de que ele estava se despedindo de mim, estava indo embora. Depois a coisa se concretizou. Na minha cabeça, esse “ir embora” significava que ele estava precisando se curar, porque eu sempre falava que ele tinha uma cabeça maravilhosa, que ele escrevia muito bem, que seria um belíssimo jornalista ou um redator publicitário, seja lá o que for. Eu insistia para que ele pulasse fora, porque ele era inclusive um menino bonito. O poema dele me dizia isso, e eu nunca mais vi esse menino. Mas eu tenho certeza de que ele pulou fora, porque ele falou para mim que se um dia pulasse fora, eu ficaria sabendo.
Eu tenho muitas lembranças desse período. A gente trabalhava muito próximo do aluno, porque havia um respeito diferente. O contato era diferente na sala de aula. Hoje, eu já não tenho essa proximidade com os alunos. Antes eu saía com eles, a gente ia para os bares conversar. Hoje, pela própria estrutura que está aí fora, pela própria maneira do jovem, o meu contato é maior dentro da própria Universidade. Por outro lado, o aspecto socioeconômico naquela época era mais favorável. Hoje eles me procuram, a gente tem um contato muito grande, uma relação boa, mas só dentro da Universidade.
Quando eu comecei a escolher o que fazer, profissionalmente, eu decidi ser normalista. Fiz Magistério no Colégio Ave Maria e fui trabalhar com crianças na Escola São Paulo, que era na antiga Fazenda Holambra, hoje município de Holambra. Era uma escola particular e eu alfabetizava as crianças holandesas que vinham da creche já falando português. Alguns anos depois, eu encontrei algumas dessas crianças como meus alunos na Universidade. Revi alguns em Jornalismo, outros em Relações Públicas e outros em Educação Artística. Foi uma experiência muito gostosa esse reencontro, porque, ao mesmo tempo em que eu lembrava daquele passado, a experiência da alfabetização, eu estava com os alunos na Universidade já adultos, discutindo comigo, se colocando, se posicionando, e isso dava uma sensação de vitória. Afinal, eu tinha alfabetizado aquele menino que agora falava português sem sotaque e brigava na comunidade dizendo que era brasileiro e não holandês. Então, esse tipo de atitude demonstrava que ele tinha incorporado um pouco daquilo que eu havia ensinado. Aquele significado de pátria, de cultura que ele tinha assimilado, que eu tinha passado para ele.
Sempre tive dentro de mim esse desejo de ensinar, de educar, de demonstrar como é que é. Então, quando recebi o convite do professor Osmar, foi muito tranqüila a oportunidade de passar de uma experiência para outra, ou seja, sair da experiência de alfabetizar crianças para seguir uma experiência que não deixa de ser de alfabetização, porque o aluno universitário vem com os mesmos medos, as mesmas dúvidas, as mesmas preocupações daquele pequenininho que deixa a mãozinha da mãe e entra na sala de aula pela primeira vez. Muda a intensidade da coisa, mas é o primeiro ano lá de baixo. Na Universidade, ele já sabe ler, escrever e tudo o mais, mas é como aquele primeiro ano. A experiência de ter trabalhado com os baixinhos me deu uma fundamentação muito boa, porque o aluno lá atrás é mais sincero. Não era a época das tias, era a época das donas, então, eles me diziam: “Dona Zelinda, hoje a senhora não está bonita”, ou: “Dona Zelinda, hoje a senhora está muito bonita”. “Dona Zelinda, por que a senhora está triste?”, “Dona Zelinda, hoje nós vamos brincar lá fora, na minipraia?”, “Dona Zelinda, hoje esta aula está chata”.
O aluno era muito sincero. Ele ia aprendendo e eu fui aprendendo com ele dentro dessa sinceridade e isso eu trouxe para o aluno universitário, essa sinceridade, esse abrir o coração. De fazê-lo ser sincero, ser claro. De não manipular cola, porque ele vai manipular a consciência dele mesmo, de não esconder nada. Então, o que sempre tentei passar são esses valores. Por isso que eu gosto de lecionar: porque eu tenho uma tranqüilidade muito grande de passar esses valores, essa sinceridade, essa ética. Eu não suporto falsidade, fingimento. Eu percebo o aluno quando está fazendo isso, quando eu pergunto o que é que ele disse e ele me responde que não disse nada. Aí eu costumo pedir que, se ele estiver falando, que abra o jogo, que fale aberto, senão nós não iremos crescer, não iremos aprender. Alguns falam, enquanto outros enrolam e dizem que não é nada e mandam esquecer. Não têm aquela sinceridade que deveriam ter.
Quando a gente tem, como diz a propaganda, “25 anos de praia”, olha para o aluno no fundo da sala e percebe o que ele está falando. Sente o que ele está fazendo. E quando esse aluno é questionado pela gente, ele fica vermelho, diz que não está fazendo nada e pede desculpas. Não abre o coração. É o que está aí fora, na política. Ele é malandro, ele joga e quer sair ganhando. Ele quer jogar em tudo. Hoje eu tenho muito mais esse perfil de aluno. Até 88, 89, esse perfil não existia, mas de dez anos para cá começou a mudar. O aluno começa a ser, eu não diria fingido, nem falso, mas ele começa a camuflar, ele não é aberto. Nem todos, claro; há exceções belíssimas. Mas isso daí, em 70, 80, era muito mais gostoso de ver. O aluno era mais aberto e muito mais tranqüilo.
A partir de 91, eu me afastei das turmas de Jornalismo, porque assumi a Direção do Instituto. Eu participei de duas gestões: de 91 a 94 e, depois, de 95 a 98. Foram anos de muito trabalho. Eu tinha sido, antes, de 84 a 86, vice-diretora com o professor Oswaldo de Assis, mas eu não deixei as aulas. Foi uma experiência muito interessante, porque o professor Assis cuidava de toda a questão administrativa e pedagógica e eu cuidava de toda a questão funcional. Na seqüência, eu achei que ainda não estava preparada para ser diretora e, então, não assumi. Outras colegas assumiram. Em 89 e 90 eu recebi muitos pedidos para que reassumisse, que eu precisava voltar porque eu tinha uma linha de trabalho muito boa. E, conversando com alguns colegas, eles acharam que eu deveria reassumir sim, e me convenceram a ir que eles iriam estar juntos. Foi quando resolvi assumir a Direção e convidei o professor José Benedito Pinho para vice, mas na época ela já estava se preparando para ir embora para a Universidade Federal em Bauru, e aí a professora Maria Ângela Ambrisi Bissoli se colocou à disposição. Foi gostosíssimo! Fizemos um bom trabalho, que nos levou a uma segunda gestão, em que concorremos com um candidato fortíssimo e ganhamos. Foi uma vitória que me faz vibrar até hoje. Os nossos concorrentes eram os professores Marcel Cheida e o Paulo Cheida Sans.
Foi uma vitória muito saboreada porque, desde 90, nós vínhamos recebendo denúncias muito graves dentro do curso de Jornalismo, de colegas que não se comportavam dentro da ética proposta. Eu falava para os alunos que eu não podia fazer nada porque eu não era coordenadora, não era diretora, mas quando eu assumi a direção, os alunos falaram que havia chegado o momento de alguma ação. Eu falei que se eles assumissem comigo, integralmente, sem medo, eu abriria uma sindicância e nós melhoraríamos o curso de Jornalismo. E o grupo assumiu. Fizemos, então, uma sindicância e demos uma limpada no curso de Jornalismo. Isso foi em 91 e a sindicância saiu em 92, quando um colega foi mandado embora. De 92 a 93 houve uma segunda sindicância de uma outra colega que não era do IACT, mas que dava aula no mesmo curso. Ela também foi despedida.
A partir daí, o curso de Jornalismo começou a melhorar. Todos os outros cursos já estavam com a estrutura curricular programada, implantada, e o Jornalismo ainda estava atrasado, não tinha feito discussão nenhuma. Os próprios professores perceberam como estavam atrasados. A direção sempre incentivou, porque o jornalista é o arauto da comunicação. É o “trombeteiro da idade média”. É o cara que está na frente. Eu não me conformava com o marasmo do nosso curso de Jornalismo, da mesma forma que eu não me conformava com o nosso curso de Educação Artística, que tinha artistas com muita sensibilidade, mas que viviam no marasmo total. Nós brigávamos por isso, incentivávamos mudanças. E, quando eu consegui a segunda eleição, foi uma vitória muito gostosa, porque, além do dever cumprido de ter feito toda a programação que a gente tinha se proposto, inclusive a reforma curricular de todos os cursos e a revisão dos projetos pedagógicos dos cursos, nós competimos com candidatos reconhecidos por um trabalho que tinha que ter continuidade.
Nesses oito anos de trabalho na Universidade, nós elevamos o nome do Instituto. O IAC passou a ser IACT, no sentido de incorporar o curso de Turismo, que já existia havia 20 anos. Ele era um dos braços, pois estava dentro daquele núcleo que era PP, RP, Jornalismo e Turismo, mas não constava na sigla. Nós enviamos uma carta ao Conselho Universitário, que reconheceu que o curso de Turismo deveria se incorporar, e o Instituto passou a ser IACT. O curso de Turismo deu uma alavancada imensa e hoje é um dos melhores cursos que existem na região, eu diria, no Brasil.
A experiência de Direção foi muito boa, porque aquele olhar que eu mencionei lá atrás, a maneira de olhar os alunos, de mostrar-lhes o caminho e de estar junto, nós trouxemos para a nossa Direção. O que a professora Roberta Pucceti (professora de Educação Artística) falou no Planejamento, que a porta da Direção está sempre aberta, metaforicamente, que a Direção está sempre aberta, nós a tivemos nos meus oito anos de gestão. Nós estivemos abertas para a Universidade inteira. O Instituto de Artes, Comunicações e Turismo foi reconhecido dentro e fora da Universidade.
Hoje ele tem uma imagem de peso, de qualidade, de gente séria, que trabalha. Nós organizamos, colocamos ordem, brigamos com os professores. Tivemos que dar advertências, mas se não fosse assim nós não poderíamos nem cobrar dos alunos.
Havia professor, por exemplo, que cobrava do aluno, dava zero para o aluno. E o aluno ficava aqui brigando e dizendo que o professor não tinha corrigido sua prova. Esse mesmo professor já estava um mês atrasado na entrega do livro de chamada, e a secretaria sempre cobrando. Então, o Condepe definiu a advertência, e a partir daí começamos a colocar ordem na casa. Foi um trabalho muito bom, muito bonito que fizemos na direção do IACT.
Em 98, no meu último ano de gestão, quando os alunos se vestiram de sacos de lixo e foram à Reitoria dizendo que eu não tinha feito nada, que não tinha sala de aula, gravador, isso ou aquilo, eu refleti sobre o que nós não tínhamos feito. E também por que os alunos estariam fazendo aquilo. Foi quando percebemos que eles não estavam agindo assim por eles mesmos, mas que tinham sido “pau-mandado” de um professor daqui do Instituto; na seqüência, a nova direção experimentou a mesma coisa. A Direção perguntou a esse professor se ele tinha falado isso ou aquilo dentro da sala de aula; ele ficou vermelho e quis saber como ela tinha tomado conhecimento; foi-lhe dito que, casualmente, os alunos do DA tinham sido chamados e, conversando com eles e pressionando-os, eles haviam soltado o nome. Então, foi dito a ele que prestasse atenção, porque não havia sido mudada somente a Direção, mas toda a Universidade. E que ele tomasse cuidado, porque, independentemente de ele ser sindicalizado da Apropucc, ele seria mandado embora. Para não ocorrerem situações desse tipo, ele pediu afastamento daquelas aulas para ficar longe dos alunos.
Quando eu era professora e diretora, dizia para os meus alunos que eu não era relações-públicas, mas hoje vejo que eu sou uma relações-públicas, sim. Quando eu me arrumo, quando me preparo para representar o Reitor em uma cerimônia qualquer de Jornalismo, de Publicidade ou de Relações Públicas para a qual ele me manda, eu estou representando uma Instituição, que se chama Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Eu só posso fazer isso porque tenho valores que batem com os valores da Universidade, porque, se eu não tiver ética, e não tiver comportamento e uma série de coisas, eu não sou chamada a fazer nada. Eu deixo de ser reconhecida. Ninguém vai me chamar para representar a Instituição ou dar uma aula. E a expectativa que passamos para o aluno é essa.
Vou dar um exemplo de como os tempos são outros. Eu tive uma turma neste semestre que foi muito ruim de nota. Teve nota sete, oito, mas a média ficou entre meio e três, muito mal. Certa vez, ao distribuir prova para os alunos, uma aluna me disse que não estava entendendo o motivo das notas baixas, porque, se eu explicava tão bem as aulas e eles entendiam tudo, como é que poderiam ter feito uma prova daquele jeito? Eu respondi que provavelmente eles não tinham sabido estudar direito os conceitos. Então ela se virou para mim e disse que aquele resultado era em função da maneira como eu explicava, que era muito ruim. Eu perguntei a ela se, afinal, eu explicava bem, como ela tinha dito anteriormente, ou mal. E ela me perguntou se eu estava louca, que era claro que eu explicava mal. Então pedi desculpas a ela e disse que ela estava querendo me dizer algo mais, querendo incitar a classe, e perguntei qual era o problema dela. Ele me respondeu que só estava dizendo o que ela achava. Olhou para a classe e perguntou o que a classe achava, e ninguém falou nada. Eu então disse a ela que a nota era aquela; se ela quisesse melhorá-la, que fosse estudar para o segundo semestre ou então ficaria de DP ou entraria para exame, e que eu achava que ela tinha que maneirar a linguagem, pois ela estava falando com a professora, e que, se ela não soubera estudar e não soubera colocar na prova o conhecimento, o problema era só dela. Ela me respondeu que não era dela não, porque eu é que não sabia explicar nada. E, daí, jogou a prova em cima da mesa. Eu disse que com ela eu não conversava mais e continuei a distribuir os trabalhos. Ficou um último seminário para fazer e eu a ouvi dizer que ia pegá-lo e quem sabe livraria a sua cara. Ela colocou o nome na lousa e passei o nome dela para o caderno; agora quero ver o que vai acontecer.
Isso nunca tinha me acontecido durante todos esses anos de estrada. Tive um aluno que um dia entrou na Direção para brigar comigo, para me dar um murro. Alguma coisa me tirou da frente dele e ele quebrou a mão, porque deu com ela na parede. Mas o murro não era para mim. Descobri depois que ele brigara com um professor em sala de aula e alguém dissera a ele que eu tinha falado algo, sendo que eu nem era da sala. Eu era diretora e nem dava aula de PP. Então ele foi tirar satisfação. Mas aquele menino tinha problemas sérios, tanto que foi mandado embora. A Universidade pediu que trancasse a matrícula e fosse para outro lugar estudar para não ser expulso.
Quando há problemas, eu resolvo tranqüilamente na sala de aula. Não deixo que o problema saia da sala. Quando é muito pesado, eu falo para o coordenador do curso e ele me ajuda a resolver, mas isso é raríssimo. Hoje percebo que os alunos estão diferentes. Eles não sabem fazer, são atrevidos, mal-educados e querem que se resolva o problema deles dando nota. E eu não dou nota. Precisa estudar para ter nota. No segundo ano, eles querem a coisa mastigada. Houve uma mudança muito grande e para pior. Há falta de respeito, eles não têm estudo, não têm fundamentação nenhuma. Não sabem nada de cultura. Se pergunto sobre um filme, eles não sabem. Se comento um livro que foi lançado, eles não sabem. Eles não sabem nada, mas eles conhecem a Tiazinha…
Eles não lembram do Toni Garrido. Eles nunca viram Orfeu do Carnaval. Ninguém sabe nada, nem coisa de agora. Antes, pela própria situação da revolução, pela própria estrutura fechada, que exigia cuidado para falar em sala de aula, os alunos conheciam filmes, livros, revistas e textos. Mesmo com a repressão, a meninada sabia muito mais do que hoje. Quando não, a coisa vinha por baixo do pano, porque havia conhecimento que a gente não tinha, mas que, mesmo com a ditadura, ele chegava até nós. A turma de hoje não quer saber de nada, a não ser beber cerveja. Houve até uma menina que falou para os colegas de sala que eles estavam proibidos de convidá-la a beber cerveja e que no segundo semestre ela não iria mais tomar cerveja com eles, porque ela tinha tirado meio na minha prova. Eles não querem nada. Falta respeito, falta cultura, falta conhecimento. Poucos têm noção de cultura, do folclore, de nossa música. Perderam o referencial, ao contrário dos anos 70 e 80, quando havia um referencial de música brasileira, que era um leque muito grande. A meninada de hoje não tem um referencial, nem mesmo dessa coisa chamada pagode. O referencial pode ser de vez em quando um rap, às vezes, mas é raro, há algum aluno na sala que toca e conhece blues. Então, esse é o nível.
Ser professora nessa realidade é lutar para mostrar a eles o que está acontecendo na nossa cultura, na nossa economia. Vivemos um momento político e econômico delicado, um verdadeiro caos, mas nós, professores e cidadãos, temos que ter uma ética e valores para conversarmos com nossos alunos. No próximo ano eu reassumo as aulas no curso de Jornalismo, que tive de deixar este ano em função da grade horária. Eu saí da Direção e eles mexeram nos meus horários. Então, não pude assumi-las este ano, mas já estou voltando e aí é que eu vou ver como estão os alunos de Jornalismo.
Há uma diferença dos alunos da manhã e dos alunos da noite. São duas universidades diferentes. Sempre houve. Eu sempre gostei de trabalhar mais com os alunos da noite. São alunos mais sofridos, mais receptivos, mais necessitados, mais coerentes com aquilo que estão buscando. Se não querem estudar, trancam a matrícula. Se não é aquilo que desejam, eles saem fora, não gastam o dinheiro deles porque sabem como é duro ganhar. De manhã, é outra universidade. Há aqueles que trabalham, mas representam uma minoria; a grande maioria é bancada pelo papai. E eu pergunto a eles onde estão os pais deles naquela hora. Provavelmente estão na fábrica ou na indústria. A mãe está trabalhando ou não, mas se eles estão aqui estudando com o carrão último tipo parado lá fora, que talvez tenha sido um presente dos pais porque passaram no vestibular, eles têm que fazer por merecer isso. Senão, devem ir embora e deixar o lugar vago para quem quer estudar.
Apesar de todas as dificuldades, eu continuo na profissão porque acho um prazer lecionar. Fui convidada pela Pastoral Universitária para lecionar Comunicação para o primeiro ano do curso de Teologia, para seminaristas, e a primeira pergunta que eu fiz a eles é por que eles queriam ser padres, por que eles haviam escolhido ser padres. E eles me responderam que era para levar a palavra do reino, para evangelizar. E aí eu perguntei que palavra eles iam levar para evangelizar no ano 2000, no terceiro milênio. Eles me responderam que iriam levar a palavra de Deus; isso mexeu comigo, porque estamos entrando em novo milênio e esses alunos estão se formando para levar a palavra de Deus…
Eu continuo professora para isso também: levar a palavra, os valores, a ética. Para levar um comportamento decente para o jornalista. Para que o jornalista não seja aquele sujeito que às vezes manipula, aquele cara que vê manipular, o Gate Keeper. Ou o outro que dá a manipulação, Comand Perrier. De 25 anos para cá, eu me tornei mais tolerante em relação a certas coisas. Hoje percebo com mais clareza quando o aluno fala a verdade ou está manipulado, mas agora sei tolerar mais esse tipo de comportamento. A paciência também mudou e esse olhar mudou, é outro. Eu acho que é um olhar mais sábio no sentido de conhecimento, de coisa burilada.
Fico muito orgulhosa quando vejo meus ex-alunos – alguns deles tornaram-se professores no curso de Jornalismo –, porque é como se ficasse um pedacinho de mim em cada um. E vice-versa. Por isso é que a gente todo ano se renova e quer continuar sendo professora, porque o dia em que eu achar que eu não dou mais para o negócio eu vou parar e sair antes. Farei como o Pelé: completo mil gols e pulo fora! Mas por enquanto eu acho que ainda posso dar aula e estou dando. Eu gosto muito de trabalhar com aluno e eu sempre trabalhei com os primeiranistas. A experiência com a Direção também foi muito agradável. É pena que a coisa é muito burocrática e perde-se um pouco o contexto com aquela coisa da burocracia, de assinar papel… Mas a questão administrativa, dentro desse olhar interdisciplinar, trabalhando com essa turma toda, isso é muito lindo. Trabalhar com os funcionários, humanizar a vida deles, isso também me comove, porque na grande maioria são pessoas que necessitam. Trato os funcionários com carinho e na sala de aula insistia para que os alunos fizessem o mesmo. Afinal, os funcionários estão aqui a serviço dos alunos e por isso merecem respeito. Creio que isso nós conseguimos fazer.