Na época em que Zelinda fez a Universidade, cursou-a quando sua sede ainda era na cidade, a PUC Central. Mas, aos 3 de maio de 1973, quando ela começa sua carreira universitária, coincidentemente, estava começando a ser construído o Campus I, da Universidade Católica de Campinas, onde ela trabalharia por muito tempo. Iniciaram juntos, portanto, numa caminhada sumamente profícua: Zelinda crescendo na profissão e o Campus se multiplicando pelos diversos setores. Aos poucos construíram-se os prédios da Universidade e sua continuidade acadêmica, ao lado do amadurecimento de seus componentes, e os frutos foram surgindo e se multiplicando, no que hoje é uma das unidades do Parque das Universidades.
É interessante somarmos a isto o fato de a Zelinda ter dado aulas para o 1º ano primário, durante 10 anos, que muitos podem depreciar, no sentido do grande distanciamento de conteúdo de matérias relacionadas ao aprendizado ou ao desenvolvimento intelectual. Mas para ela foi de suma importância. Hoje está se confirmando a necessidade de especialistas na formação de crianças de 1 a 7 anos de idade. E ela começou a dar Fundamentos Científicos da Comunicação Social para alunos de Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Jornalismo e Turismo, com turmas de 100 a 120 alunos por classe. Não resta dúvida que foi uma mudança e tanto, nesse primeiro contato com alunos universitários. Mas pelo seu entusiasmo, ela foi de peito aberto.
São palavras suas: “Foi muito tranquila a oportunidade de passar de uma experiência para outra, ou seja, sair da experiência de alfabetizar crianças para seguir uma experiência que não deixa de ser alfabetizar, porque o aluno universitário vem com os mesmos medos, as mesmas dúvidas. Muda a intensidade da coisa, mas é o primeiro ano lá de baixo…. A experiência de ter trabalhado com os baixinhos me deu uma fundamentação muito boa, porque o aluno lá atrás é mais sincero… Ele ia aprendendo e fui aprendendo com ele dentro dessa sinceridade, esse abrir o coração. De fazê-lo ser sincero, ser claro. De não manipular cola, porque ele vai manipular a consciência dele mesmo, de não esconder nada. Então, o que eu sempre tentei passar são esses valores. Por isso que eu gosto de lecionar: porque eu tenho uma tranquilidade muito grande de passar esses valores, essa sinceridade, essa ética.”
Isso tudo me faz lembrar a frase, estava escrito nas estrelas, que vem a calhar de uma maneira extraordinária sobre todo esse trajeto relacionado com o trabalho universitário da professora Zelinda, desde o início dessa sua dedicação ao ensino, à educação, sucedendo-se em várias atividades e perdurando na sequência de toda a sua vida. Foi uma questão de aptidão natural, gostar de lançar a semente, servir de intermediária para uma visão da realidade, ver o brilho dos olhos da descoberta, sentir esse amor, quase inquebrantável, nesses relacionamentos que, além da informação intelectual, afirmava-se pelo prazer da convivência, da fraternidade, da espiritualidade.
E é nesse sentido que, diante de uma dessas necessidades, a da convivência, levou-a a participar ativamente na formação do Ponto de Encontro, idéia que surgiu do pe. Busch. O Primeiro Ponto de Encontro aconteceu no dia 25 de maio de 1975, às 9h de um domingo, no Colégio Coração de Jesus, que funcionava na Rua José Paulino, 1359. Encontramos muitas informações numa antiga agenda, sua preparação com muitas reuniões, e pudemos sentir todo o seu empenho na consecução do objetivo, junto aos grupos de trabalho. Procuravam uma vida interior mais profunda, num convívio irmanado de forma alegre e festiva para um desenvolvimento espiritual, que seria a complementação para quem estava cursando uma universidade católica. Comemoraram o 1º aniversário já com a formação do Grupo Ciranda, que seria o embrião do grupo de Teatro Experimental Universitário, que surgiria dois anos depois.
Neste mesmo ano de 1976, ela deu um Curso de Atualização Feminina em Piracicaba, para um grupo de mulheres, no qual houve um aproveitamento de dupla mão, pois Zelinda se refere a isso dizendo que ela também aprendera muito com o grupo. O grupo teve como paraninfo Paulo Afonso Machado, Promotor Público da cidade.
Em sua família, nascem mais sobrinhos: em 1975, o Gustavo, filho de Gabriel e Marisa. O Jayme se casa com Maria Stella Volpe e no mesmo ano nasce o Rodrigo. Gustavo ganha uma irmã, a Ana Amélia, em 1976. O Rodrigo também tem uma irmã, a Roberta, que nasce em 1977, ano do casamento do Renato com Marina Nucci. Pronto, os irmãos estão todos casados. Belinha começa a dar aulas no secundário e escolhe Serra Negra, no Estado de São Paulo, vindo para Campinas em fins de semana. Zelinda passa a ficar com a mamãe, quando ela não vai passear nas casas das filhas casadas. Conseguiram uma empregada doméstica, a Creusa Neves, casadinha de novo, vinda do Paraná, que foi assim amor à primeira vista, e ficou vinte e tantos anos conosco. Mulher de confiança, fazia todo o serviço de casa, foi, até certo ponto, o braço direito da Zê, porque ela ficava só com a dona Anita. E mamãe não abria mão da cozinha, nem do seu crochê e também não deixava de dar uma passada d’olhos no jornal. Mas tudo se alegrava de novo a cada fim de semana quando a casa se enchia de gente e as crianças faziam suas algazarras.
No 1º dia do ano de 1976, praticamente em meio ao reveillon, Zelinda parte para a Espanha em uma excursão. Esta tem por finalidade um curso sobre Turismo, nas Ilhas Baleares, Espanha. Da PUC-Campinas, além da Zelinda e do professor Oswaldo de Assis, vão mais 14 alunos do Curso de Turismo, que se juntam a outros do Rio de Janeiro, totalizando 60 alunos. A viagem tem duração de um mês e o curso acontece em Palma de Maiorca. Não poderia ter ocorrido coisa mais prazerosa para a professora Zelinda: viajar! Sobre o curso não temos referências. Em compensação, há um álbum cheio de fotos dos caminhos percorridos. Além de Palma de Maiorca, onde se hospedam num belíssimo hotel, o Kontiki, com vista para o Mediterrâneo, conhecem vários hotéis, como programação do curso. O grupo faz uma excursão para Valdemosa, vindo, em seguida, para o continente e visitam Montserrat, Barcelona, Toledo e Madri.

Maciço montanhoso, onde se localiza Montserrat, próximo de Barcelona, com o Mosteiro beneditino e onde se encontra a Virgem de Montserrat, a Virgem Morena.
Voltaram, e Zelinda teve que assentar a cabeça para poder dar início a alguns projetos, sendo que um deles foi preparar aulas para um curso que começaria em maio desse mesmo ano na Faculdade de Ciências e Letras de Araras, cidade próxima de Campinas. Dava uma aula por semana e esse trabalho se estendeu até novembro de 1983. E no começo de 1977, iniciara as aulas de Publicidade para o 3º ano do colegial técnico, no Instituto Educacional Imaculada, que se prolongou, também, até 1983.
Nesse período, Zelinda já aprendera a dirigir, Belinha comprara um Fusca e, nas férias de julho, as duas tomaram a direção de Minas Gerais, e ficaram o mês todo visitando suas cidades históricas. Contam fatos curiosos, adoraram tudo que viram.
Há um trecho na entrevista da Zelinda no qual ela diz que “não havia uma disciplina de Teatro e Expressão, como se tem hoje. Então, a minha disciplina, Fundamentos Científicos, discutia isso. Essa disciplina trabalhava a parte teórica e, como eram aulas duplas, nós discutíamos tudo aquilo que o aluno gostava de pesquisar. Investigávamos desde quadrinhos, música, cinema, teatro.” Era o ano de 1978 e foram feitos bons trabalhos nessas diversas áreas. A peça “O Tartufo”, de Molière, realizada pelo TEU (Teatro Experimental Universitário), começou a partir das aulas de Fundamentos Científicos da Comunicação. Assim também, com a turma do 1º ano B matutino de 1979, foi encenado, no fim desse ano, um trabalho sobre Teatro de Revista- Vem que tem -, no qual participaram várias alunas.
Trabalhou ativamente também, junto com seus colegas, para a fundação da Associação dos Professores da PUC, a conhecida APROPUC, em 1978.
Na festa de fim de ano da família, que já virara tradição, na qual todos se reuniam para uma ceia e troca de presentes, Zelinda, nessa passagem de ano, aparece com um lenço na cabeça por ter sofrido um acidente. O Renato e Marina já tinham tido o Gabriel em 78 e a Ana Carolina nasceria no ano seguinte.
Neste ano 1979, além de suas aulas, Zelinda uniu-se a seus colegas, os professores Otávio Jacobini, Adalberto Paranhos, Ari Fernandes, Vera Irma Furlan, pe. Benedetti, dentre outros, para concretizar a democratização do Sinpro, Sindicato dos Professores de Campinas e Região. Somente em 1981, com a eleição de Augusto Petta, para a diretoria do Sinpro, é que se iniciou a sindicalização dos professores. Mas, depois dessas eleições, já estavam pensando na construção de uma entidade nacional de docentes, a ANDES, a Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior.
Aos 3 de março de 1981 há uma grande celebração na família Fávero Gervásio, por causa dos 80 anos de dona Anita, da mama. No ano anterior, ganhara duas netinhas: Ana Beatriz, do Xará e Marisa, e a Renata do Jayme e Stella. Para encerrar a vinda dos netos, ela teria mais um, o Rafael, irmão da Renata, que nasceria em 83. Sem o Rafael, aos 80 anos ela era avó de 17 netos. Houve uma missa no Colégio Coração de Jesus, celebrada pelo pe. Busch, no mesmo local do Ponto de Encontro. Em seguida, fomos todos para a casa do Renato e da Marina para as fotos, mas houve alguma dificuldade para reunir os pequenos, alvoroçados já por causa da festa e do bolo. Vivemos esse dia gostoso, mamãe com saúde e todos nós felizes.

Festa de aniversário dos 80 anos de dona Anita. De pé: Renato, Maria José, Paschoal, Ana Maria, Dudu, Jayme, Maria Stella com Roberta, Marisa com Bia, Xará, Artur, Modesto e Darcy. Sentados: Marina com Carol, Tata, Anna Cristina, D.Anita com Renata, Maria, Hanna, Melinha, Sabá, Maria Cristina, Anna Cláudia e Regina Luiza. Sentados no chão: Lorette, Zelinda, Sílvia, Belinha, Gabriel, Gustavo e Rodrigo. Faltou a Anna Valéria.
Belinha e eu nunca soubemos que Zelinda fosse da Pastoral Universitária. Encontramos vários bilhetes de alunas e alunos agradecendo uma ajuda, uma palavra, uma indicação. Ela diz na entrevista que às vezes era só a falta de um apoio pra matar as saudades de casa, da mãe, ou pedindo um conselho para tomar uma direção. E o fato de ela ser solteira, talvez por estar mais à disposição, tendo o seu tempo, facilitava o encontro. Mas ela gostava de conviver com situações em aberto, com a diferença do outro.
Essa mulher espontânea, alegre, solícita, na Universidade, era a mesma quando estava em sua casa, quando saía a passeio com suas amigas e amigos, nos encontros em bares, no cinema, no teatro, ou com o pessoal da família. Foi, juntamente com as amigas, algumas vezes para Recife, principalmente para passarem o carnaval em Olinda. Foi ao XI Congresso de Comunicação Social, em 83, também no Recife, foi a Caldas Novas. E fez pequenos passeios com a família, como para Águas de Lindóia, Serra Negra, São João da Boa Vista, Poços de Caldas, Limeira, São Paulo. Foi ao Maracanãzinho, em 1980, com as irmãs do Instituto Imaculada, na visita do papa João Paulo II ao Brasil.
Em 1982, apostando corrida com seu sobrinho Gustavo, no quintal da Barão de Itapura, desequilibrou-se e foi de encontro ao muro, e, para não bater a cabeça nele, colocou o braço esquerdo como apoio, mas quebrou-o com a batida.
Modesto, nosso irmão, casara-se com Dolly Martins, moravam em São Paulo, não tiveram filhos. Ele trabalhava no setor de Química Industrial quando tivemos a triste notícia de que ele estava com câncer de próstata. Isso aconteceu em meados de 82. Íamos constantemente visitá-lo, sabíamos que não tinha condições de melhora por a doença estar em estado avançado, foi perdendo a vista e veio a falecer no dia 9 de maio de 1983. Ele tinha apenas 56 anos de idade, foi um golpe muito rude; a perda de um irmão é muito dolorosa, e, então, imaginamos o que a mamãe estava sentindo, perdendo um filho. Tanto é que depois da morte dele, parece que ela se recolheu para dentro de si mesma, já não achava muito mais graça nas coisas. Acabaram-se as gargalhadas. Foi uma perda que pesou muito em todos nós. Modesto era um irmão querido embora vivendo longe, que sempre esteve presente nas horas de maior necessidade.
Mesmo com o pesar, a vida tem que continuar. Zelinda, nesse mesmo ano se desligou das aulas da Faculdade de Ciências e Letras de Araras e do Instituto Imaculada para candidatar-se como vice-diretora na chapa com o professor Oswaldo de Assis como diretor do Instituto de Artes e Comunicações, pelo período de janeiro de 84 a dezembro de 86. Com uma campanha que focalizava de A a Z, e outros dizeres, conseguiram ganhar de uma companheira de bastante prestígio que foi a professora Regina Márcia. Zelinda ocupou-se da parte funcional do IAC, continuou com as aulas integralmente, participava também de reuniões, semanas de estudos, assembléias e congressos.
Nestes três anos que se seguiram, não temos notícias ou fotos de grandes passeios, mas encontramos festas de aniversário, confraternizações, significando que o trabalho se tornara mais extenuante. Nesses anos todos, desde o início de sua carreira universitária, já conseguira formar uma pequena, porém, boa biblioteca profissional, além de livros de literatura, e muitos livros recebidos de presente, principalmente de poesia, dos próprios autores. Das artes, a música vinha em primeiro lugar. O cinema, as artes plásticas, estas eram vistas mais em livros. Seguia sua vida religiosa. Possuía dentro de si valores profundos, que era difícil se menosprezar por qualquer tipo de ação contrária a esses valores. Eram os mesmos princípios que passava para seus alunos e que conseguia vivê-los nas mais variadas situações de sua vida.
Nos anos 80 começam os casamentos das sobrinhas. Maria Cristina se casa com Artur Arrelaro, em 1981, e nasce, nesse mesmo ano o Raul e, em 1983, a Raquel. Lorette e Victor Mendes Cardoso se unem em 1985 e, o primeiro filho João é de 1986. Regina Luiza casa-se com Carlos Rosa, em 1985, nascendo Luíza, em 1986 e Márcia, em 1989.
Ana Valéria e Fábio Bucaretchi se unem em 1985, nascendo no fim do ano o Yuri. Começa, então, a vinda dos bisnetos e, para as tias, a dos nossos sobrinhos-netos.
Zezé, neste período de muito trabalho, no IAC junto com o professor Assis, e com as aulas, teve duas compensações. A Belinha voltou para lecionar em Campinas, em vários colégios, e eu, que já estava cansada do trânsito de São Paulo, literalmente, depois de viver por lá 30 anos e trabalhando todos os dias, também estava voltando. Havia perdido o emprego, arranjaria um em Campinas. Começava o ano de 1985. Como procurei emprego em duas editoras e não consegui nada, e como eu sabia das várias preocupações da Zê, minha primeira promessa que lhe fiz foi relacionada à sua completa liberdade de ação, sem precisar pensar em mais nada que fosse ligado às coisas da casa. Encantou-se, parece que até ficou mais leve, que ia flutuar. E ela sabia que podia confiar plenamente. E essa resolução foi incrivelmente boa para ela, repercutindo mais lá na frente, quando ela decidiu se candidatar para a diretoria do IAC porque, além de ter o apoio de seus colegas e funcionários, ela teve o apoio do pessoal de casa. Nessa mesma época começaram suas viagens ao exterior, viagens essas que lhe fizeram um bem incalculável.
Eu, Sabá, precisava de alguma forma trabalhar. Abri o LIVRO LIVRE – Aluguel de Livros, na garagem de casa. Em São Paulo, na época, existiam várias casas com essa finalidade. Por aqui, nem pesquisei, achava que era uma boa idéia: Campinas com duas Universidades, gente culta. Tive o apoio da Zê. Fizemos propaganda, tínhamos livros atuais, principalmente de literatura em geral. Eu e a Belinha revezávamos no atendimento. A firma funcionou durante uns oito anos.
Mamãe começou a dar sinais de esquecimento, no início na cozinha, depois nas conversas. Errava muito também no crochê, mas ela continuava fazendo esse trabalho. Eu comecei a ajudá-la na cozinha, depois fui substituindo-a aos poucos, até que assumi, ficando tudo por minha conta. O sobrado já estava ficando difícil para ela, a residência na Avenida Barão de Itapura ficou isolada, porque se tornara área comercial e, então, resolvemos vendê-lo, depois de 32 anos de vida. Em abril de 1989 mudamos para a Rua Celso Egídio de Souza Santos, no Jardim Chapadão, para uma casa térrea, ampla. Antes de mudarmos, fizemos uma churrascada como despedida da casa, com a família toda, os poucos vizinhos e os amigos.
Já na casa nova, em setembro Zê foi a Campos do Jordão com Salete e outras amigas. Uma das poucas fotos da professora Zelinda em aula foi tirada pelo Eurico, do Correio Popular, em 13 de outubro de 1989. Ela está com um grupo que resolveu comparecer na Semana do saco cheio.

Professora Zelinda e um grupo de alunos que resolveu comparecer na Semana do saco cheio, 13.10.1989.
E assim, percorremos mais dezesseis anos de vida da professora Zelinda em Campinas. Disse, no trecho anterior de sua biografia, que é impossível comentar a vida da Zelinda sem esse entrosamento com seus familiares, com sua mãe. Disse que era praticamente vital, embora, nunca lhe atrapalhasse sua independência e sua vida particular. Daí os fatos caseiros relatados.







