Parte II – Sua formação
Nesta segunda parte, quero frisar a importância da infância e da adolescência para a vida da Zelinda. Principalmente seu convívio com pais e irmãos, sua vida escolar e social e as boas condições que teve, apesar de ter perdido o pai aos 10 anos, e em seguida a casa onde morava, levando a família a se mudar para outra cidade. Creio que Zezé tinha alguma coisa relacionada com resiliência, porque conseguia sair imune quando confrontada com adversidades.
Quando criança e adolescente, ela pôde experimentar todo o seu potencial nos mais variados jogos, brincadeiras e relacionamentos. E sabemos que é a partir desses acertos e erros que a criança aprende a refletir sobre seu relacionamento com o mundo e com ela mesma. Nesses contatos entre o eu e o nós é que formamos o nosso ser.
Ela e os outros que se mudaram, neste sentido, estavam bem forjados para encarar os problemas sérios que surgiriam posteriormente e pelo modo sadio que encaravam a vida.
Mas, não resta dúvida que, naquele momento da mudança, para minha mãe e meus irmãos Gabriel (Xará), Anna (Tata), Jayme, Belinha, Zelinda (Zezé) e Renato — que tiveram que deixar aquela casa de São José do Rio Pardo e se mudar para outra cidade — não foi fácil passar por todos aqueles momentos de apreensão, de abandono e perdas, de despedidas de parentes e amigos, de incertezas pelo futuro. Escolher o que levariam na mudança foi muito difícil, porque a casa escolhida nunca iria acolher os móveis necessários e a variedade de objetos.

Sobradinho da Av. Barão de Itapura, 1114, em Campinas, onde dona Anita morou durante 30 anos. Esta casa já foi demolida.
O Modesto alugara uma casa em Campinas, e deveriam se mudar até março, para o início das aulas do ano de 1957. Era na Rua Tiradentes, 777, onde ficaram apenas alguns meses, mudando-se depois para uma casa bem maior, com porão e vasto quintal, na Avenida Barão de Itapura, 1114, no mesmo bairro do Guanabara, com o bonde na porta. Esta casa foi adquirida depois de algum tempo. Permaneceram nela por 30 anos e podemos dizer que foi uma casa abençoada. Temos muitas e boas lembranças dela: foi onde a Tata se casou, os três irmãos noivaram, Belinha e Zezé fizeram suas vidas e muitos netos e bisnetos brincaram, deixando muitas recordações e saudades.
E falando em lembrança, Tata, Belinha e Zezé contam que na rua Tiradentes, em frente da casa onde inicialmente moraram, existia uma república de oficiais do Exército, com maioria de cariocas, que exerciam funções na Academia Militar de Campinas. Eram cinco ou seis que moravam ali, e logo que chegaram, começaram os olhares, os “flertes”. Mas mesmo com a mudança para outra casa, que não era longe dali, com o tempo, o namoro da Tata com o tenente Darcy Lourenço de Britto se firmou. Casaram-se em fevereiro de 1960.
Em abril desse mesmo ano, voltaram a São José do Rio Pardo por causa do falecimento da nona Mariana, nossa avó materna, aos 86 anos de idade.
Foi nesse ano também que, durante as férias, Zezé e Belinha passaram uma temporada na fazenda do tio Lauro, em Marília, irmão caçula do nosso pai.

Uma das primeiras fotos da família reunida em Campinas, em 1962. Da esq. para a dir.: Zezé com Regina Luísa no colo, Dida, Belinha, Xará, Maria, Modesto, Tata, Darcy, Renato, Jayme e Paschoal; Lorette, Luiz Eduardo (Dudu), Ana Maria, Maria José com Sílvia no colo, Maria Cristina, Dona Anita, Anna Valéria e Hanna.
A vida em Campinas não começou fácil. O Jayme e o Xará se empregaram e os três menores continuaram os estudos. Modesto e eu, que já trabalhávamos fora, ajudávamos também na manutenção da casa e nas despesas.
Zezé foi matriculada no Instituto Carlos Gomes, para cursar a 7ª série. Além de ter passado por todos os imprevistos, perda da antiga casa, mudanças, adaptações para um reinício de vida, ela sofreu grande preconceito tanto de professores quanto dos alunos, porque era aluna vinda de fora. Para ela foi muito difícil sentir na pele o que é ser afastada do convívio escolar, porque nunca tivera essa experiência, mas acabou superando esse problema.
Terminada a 8ª série, ela escolheu o Magistério como profissão, cursando o Instituto Educacional Ave Maria, que foi custeado pelo nosso irmão Modesto.
Foi o melhor que podia ter acontecido porque, depois de três anos de curso, teria condições de trabalhar. Ocorrendo o oposto do que sucedera num colégio público, ela e a Belinha (que havia desistido de estudar, porque sucedera com ela o mesmo preconceito no Colégio Culto à Ciência) encontraram no Ave Maria, tanto na direção, quanto nos professores e colegas, pessoas humanitárias, intelectualmente capazes, solidárias. Elas se adaptaram maravilhosamente e amavam tudo aquilo. Zelinda participava, além das aulas, de todos os eventos: era boa no vôlei, jogando certa época pelo Clube Fonte São Paulo. Participava também dos retiros espirituais que o colégio promovia.

Formatura da Zelinda no Magistério, acompanhada pelo seu irmão Gabriel.
Formou-se professora primária em 1962 juntamente com a Belinha e, em abril de 1963, foram lecionar na Escola São Paulo, na antiga Fazenda Ribeirão, em Holambra, próximo à Campinas, região na qual se estabeleceram várias famílias holandesas, em 1946. Seus alunos eram todos filhos desses holandeses e alguns nem falavam bem o Português.
No primeiro ano que começaram a lecionar ambas tiveram como supervisoras, durante certo tempo, professoras holandesas, que já falavam o Português, orientando-as didaticamente. Depois disso, Zelinda ficou sempre com o 1° ano, e Belinha com o 2º. O amor entre alunos e professoras se estabeleceu desde o início. Zezé preparava muito bem as aulas, tinha material escolar e didático à vontade, contava historias infantis e cantava com os alunos nossas cantigas. Já naquela época não davam nota. Faziam caminhadas, passeios à cidade de Valinhos, próxima à Campinas, à Chácara Colméia, até os administradores da Fazenda construírem uma mini-praia com brinquedos, balanços e campo de futebol. Comemoravam todas as festas, inclusive a de São Nicolau ou Nícolas, do ritual holandês, que Zezé gostava muito. Havia o encantamento das professoras alegres, bonitas, e tudo fluía, a cada ano, no melhor dos mundos infantis.

A festa de são Nicolau acontecia no dia 5 de dezembro, em Holambra. Sua chegada era uma expectativa: de alegria ou de receio dependendo de sua fala, porque podia vir um puxãozinho de orelha.
As principais distrações da Zezé, nesses primeiros anos de Campinas, eram os filmes pela televisão, os desenhos animados, leituras de revistas em quadrinho e, de vez em quando, lia Me. Delly e outros livros retirados na Biblioteca Municipal. E música, adorava música.
As duas irmãs professoras permaneceram em Holambra por 10 anos, até 1972.
Quando Zelinda decidiu entrar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade Católica de Campinas, começaram os estudos de Português, Matemática e Inglês, que eram provas escritas e orais. Cursou Ciências Sociais, de 1965 a 68, pagando as mensalidades com suas aulas em Holambra.
Foi um período de muito trabalho, cansativo, mas proveitoso. Dedicou-se mais à Antropologia e à Sociologia. Fazia, com colegas e professores, pequenas excursões a sítios arqueológicos, como uma pesquisa antropológica – Sambaquis – em Jaraçatiá, em julho de 1965 e a uma chácara de Humberto Salinas, em novembro de 1968. Foi neste ano, o quarto da faculdade da Zelinda, que realizaram uma belíssima viagem à Bolívia, onde permaneceram mais tempo, e ao Peru, conhecendo principalmente Cuzco. Viajaram, de trem, de barco e ônibus, de 2 a 27 de julho, viagem essa organizada por Alfonso Trujillo, peruano, professor de Métodos em Pesquisa Social. Foi uma viagem sumamente proveitosa para Zezé, com muitas observações e fotos. O Professor era casado com Maria Salete Trujillo, formada em Antropologia. Ela e Zelinda tornaram-se amicíssimas posteriormente. Salete esteve com a amiga em vários momentos de sua doença.

Viagem para Bolívia e Peru, no ônibus comum de passageiros. Grupo formado por 14 pessoas. Na frente, à direita, professor Trujillo. Maria Salete, ao seu lado não aparece na foto.
Terminada a Faculdade, Zelinda continuou em Holambra, aproveitando o resto do tempo estudando, lendo muito, fazendo alguns passeios como no Mirante, em Piracicaba, indo à cidade de Batatais, onde moravam nossa irmã Tata e o Darcy, já com as filhas.
Os anos 60 se constituíram, no Brasil, pelo menos até o golpe de 64, numa época rica de movimentos populares, grandes perspectivas de desenvolvimento, de liberdade de ação e de expressão de atividades diversas, com empolgações político-culturais muito variadas. Depois do golpe, tudo foi piorando, embora o cotidiano parecesse continuar sem alterações para a maioria da população, já começara a repressão, as prisões de militantes, mortes, expulsões e as censuras nos meios de comunicação.
Com relação à Educação, a ditadura acabou com os centros de ensino especializados como a Escola de Aplicação da USP, os vários colégios de Ensino Vocacional e tantos outros que se desenvolviam, assim como renegou o Método Paulo Freire.
Eu, Sabá ou Dida, que me formara em Pedagogia em São Paulo e por lá ficara, tornei-me uma importante “comentarista” de todos esses acontecimentos para Zezé. Simplesmente por interesse de ambas as partes. Eu ia para Campinas a cada quinze dias e só precisava esperar que acabasse a transmissão da Jovem Guarda para conversarmos. Era sobre toda essa situação na qual vivíamos, sobre comunidade de trabalho, teatro, cinema, partido trotskista, comunismo, psicoterapia de grupo, namorados, livros, além de tudo o que estava ocorrendo no nosso país e nos países vizinhos com as ditaduras militares.
Zezé se interessava por tudo, participava com leituras, acompanhou as publicações de meus dois livros sobre orientação sexual para crianças, e se entusiasmou quando consegui ir para a Europa. Era 1967.
Eu nunca fui uma militante política obsessiva, mas estava constantemente colaborando de várias formas com o pessoal de esquerda. Em meados de dezembro de 1970 fui presa pela Operação Bandeirantes, por ter dado guarida a uma militante bastante ativa, que não estava bem de saúde. Estou contando isso porque foi a Zelinda que esteve em São Paulo para conseguir, lá no Deic, permissão para me visitar e levar coisas de que precisava, porque só me soltaram em abril de 71.
Era muito gostoso, e mesmo comovente, conversar com a Zezé porque ela era, e agora vejo que sempre foi, de uma abertura inacreditável para os mais diversos assuntos.
Zelinda já comprava seus livros, seus discos, quando começaram a venda de coleções de livros, principalmente de autores brasileiros. Ela adquiriu a coleção de Jorge Amado, e lia, os preferidos eram o Mar Morto e o Jubiabá; a de Josué de Castro e o interessante foi uma coleção chamada Coleção Básica Brasileira, da Editora Universidade de Brasília, com livros como: Formação da Economia do Brasil, do Celso Furtado, A Cultura Brasileira, de Fernando de Azevedo, Casa Grande e Senzala, Raízes do Brasil, Os Sertões, Minha Formação, de Joaquim Nabuco, História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo.

Foto da Zelinda de 1972.
Em 1973, lecionou na Escola de Propaganda e Publicidade em São Paulo. Mas esta experiência não durou muito. Em meados desse mesmo ano, Zelinda foi convidada pelo professor Osmar de Paula Pinto para assumir o curso que, na época, se denominava Fundamentos da Comunicação, na Universidade onde se formara. Ela não teve dúvidas, e voltou para lecionar em Campinas. O professor Osmar mudou-se para Belo Horizonte e, a partir de 3 de maio, ela começou sua carreira universitária, aprofundando-se nos estudos.
Durante este período, que foram os primeiros dezesseis anos de vida em Campinas, tudo foi se ajeitando aos poucos para todos. Para Zezé, além de seu trabalho e desenvolvimento intelectual, esse período foi importante também para seu equilíbrio emocional, sua vida familiar, social, sentimental e espiritual.
A espiritualidade da Zelinda parece que sempre foi calma e eterna. Acho que ela nunca teve a menor dúvida da existência de um Deus de bondade, de caridade e de amor. Das suas queixas, nunca ouvimos uma só que se levantasse contra os desígnios de Deus, seja para que lado fosse, ou relacionado com sua vida, ou com a de outrem.
Com relação à vida sentimental, afetiva, Zezé foi sempre uma amante da vida, da liberdade, do amor às pessoas em geral, das coisas belas, da nobreza de espírito. Sua vida amorosa correu ao lado das nossas vidas, principalmente da minha e da Belinha, mas, não farei nenhuma observação ou comentário, principalmente por respeito à ela e à sua própria vida. Mas ela amou.
Enquanto sua vida social transcorreu sem grandes lances, sua vida familiar, pelo contrário, foi um campo aberto de novidades, de crianças nascendo, de visitas que chegavam, das namoradas dos irmãos que formariam a segunda leva de casamentos na família, de almoços aos domingos na casa da avó, de festas de aniversários, de Fim de Ano, de São João. É impossível comentar a vida da Zelinda sem esse entrosamento com seus familiares, com sua mãe. Era praticamente vital, embora, nunca lhe atrapalhasse sua independência e sua vida particular.
Como Zelinda tinha muito orgulho de seus sobrinhos, e os amava, eles serão mencionados em sua pequena biografia. Portanto, além dos quatro sobrinhos nascidos até 1957, quando a família deixou São José, nascera mais uma do Paschoal e da Maria José, a Sílvia, em 1961; da Maria e do Hanna, a Regina Luísa, em 1960 e do Darcy e da Tata, a Anna Valéria, em 1961, a Anna Cristina, em 1963 e a Anna Cláudia, em 1967. Era uma preponderância de mulheres, sem dúvida.
O segundo casamento em Campinas foi do Gabriel (Xará) com Marisa Mansur, em 1973.
Dona Anita, nossa mãe, nessas alturas, estava com 72 anos e comandava o batente, e Zelinda, a sub-comandante, era a principal fornecedora dos meios para fazer tudo isso funcionar às mil maravilhas.