Parte I — Seu mundo infantil e adolescente
Quando Zelinda nasceu, e, provavelmente, depois de a parteira arrumá-la direitinho em suas fraldas e manta e levá-la a sua mãe, dona Anita, foi chamado, em seguida, seu pai, o Sr. Gabriel, e este, por sua vez, chamou os outros filhos, quatro irmãos e quatro irmãs, para verem a nova criaturinha que havia nascido. Acho que se tornara ritual essa situação.
Lá estavam desde a irmã de dois anos e meio, a Belinha, até o irmão mais velho de vinte anos, o Paschoal. Era dia 5 de junho de 1941, na cidade de São José do Rio Pardo, e seu nome seria Zelinda, apelidada depois, pelos irmãos, de Zezé. Nascera com uma penca de irmãos, e viria a ter pencas e pencas de amigos pela vida afora. Nasceria, depois de dois anos, seu irmão caçula, o Renato, com quem brincou parte da sua infância.

Família da Zelinda. Sentados, seu pai, Gabriel, e sua mãe, Anita, grávida do Renato. À esquerda, de pé: Paschoal e Xará; sentados: Maria e Jayme. À direita, de pé: Modesto e Tata; sentadas: Dida com Zezé ao colo e Belinha. Foto de 1942.
Zezé era filha de Gabriel Gervásio, italiano nascido em Rovito, província de Cosenza, mesma cidade de seu avô João Paschoal, casado com Sabatina Amorelli, de Salerno, no sul da Itália. Ele chegou ao Brasil com um ano de idade.
Sua mãe, Anna Fávero, Anita para o marido, nasceu em São José do Rio Pardo, filha de italianos: Modesto Fávero, de Altivole, província de Treviso, e Mariana Darin, de Vigo de Cadore, província de Vêneto, ambos do norte da Itália.
Voltando ao nascimento de Zezé, dessa quantidade de irmãos, eu, Dida, sou a quarta filha e por ser 12 anos mais velha que ela, fui escolhida para pajeá-la, nos seus dois primeiros anos. Zezé era meio franzina, creio que por causa de uma dor de ouvido que a fez sofrer por dois anos. Levei-a algumas vezes ao médico, mas, depois disso, além do sarampo e da catapora, cresceu uma menina saudável.
Sua primeira queda foi por minha causa, quando quis brincar com ela, sentando-a num pequeno portão que eu abria e fechava e que dava acesso ao interior da casa comercial onde morávamos. Eu me distraí, não a segurei firme e, com o tombo e o susto, ela começou a chorar; vieram acudir e eu levei uns cascudos e pitos. Felizmente não houve nada de grave.
Eu fui sua madrinha de batismo e seu padrinho foi Santo Antônio. E não era por falta de tios. Papai tinha oito irmãos homens e mamãe, dois.

Da esquerda para direita: Gabriel, Renato, Anita, Zezé e Antonieta, também na cidade de Aparecida, em 1945.
Com dois anos de idade já fora levada à Aparecida do Norte, como mostra uma foto de l943. Passados dois anos, para confirmar e agradecer as boas-vindas e a saúde dos dois últimos filhos, Zezé e Renato, nossos pais viajaram com eles e uma pajem a Aparecida.
A casa comercial que tínhamos era bem grande e situava-se numa praça enorme, onde havia o mercado da cidade no seu centro. Havia também um espaço onde se armavam os circos que chegavam por lá, e muito lugar para brincar. O Grupo Escolar “Dr. Cândido Rodrigues” ficava numa rua lateral dessa praça.

Casa da família da Zelinda vista do jardim do Artese. Cópia de uma pintura feita pelo professor de Desenho, Germinal Artese.
Falo em casa comercial, que era de secos e molhados, uma das melhores da cidade, com um atendimento de primeira classe e com um sortimento de mercadorias da melhor qualidade. Com suas cinco portas largas e altas que se abriam, ventilando toda a loja, era quase o mundo da fantasia da época. Tinha de tudo e muita mercadoria estrangeira. Era muito bem organizada, cada coisa em seu lugar, e os lugares, até com seus aromas, porque ficavam expostos, como das especiarias, dos sabonetes, das azeitonas, dos queijos, o cheiro do bacalhau, do fumo, da pinga.
O bacalhau, as azeitonas e os queijos, principalmente o parmesão, ficavam no centro da loja, inclusive para o papai ficar de olho neles e em nós, pois, geralmente, quando passávamos por ali, tirávamos uma lasquinha de alguma coisa. Aquilo era a nossa alegria.
Nós morávamos no andar de cima da casa comercial que era esplêndido.
O quintal também era muito, muito importante para nós. Era grande, irregular, com jabuticabeiras, mangueira, horta, jardim, tendo cada coisa seu lugar também, além de muito espaço para brincadeiras de bandido e mocinho, jogo de bola, esconde-esconde, pegador, casinha, teatrinho. Mas todos gostávamos de subir na carrocinha puxada a mula, ou andar na rabeira da camionete, trepar nas sacarias empilhadas no armazém, ajudar na lavagem de garrafas para engarrafar vinho, porque mexia-se n’água, e retirar mercadorias das caixas, por causa dos brindes.
Freqüentávamos a escola, o grupo escolar ou o ginásio, e os irmãos mais velhos ajudavam na parte comercial: vender, fazer pacotes, voltar trocos, arrumar prateleiras.
Mamãe coordenava as funções da casa; lembro-me da lavadeira com um mundaréu de roupa, às vezes também mexendo o tacho e fazendo sabão – eu mesma torrei café várias vezes. Lembro-me também de ter visto muitas vezes nossa mãe fazer pão. E os pequenos observavam como as irmãs maiores trabalhavam, encerando o assoalho, tirando o pó, lavando o chão da copa e da cozinha, dando banho neles, passando roupa, indo ao mercado comprar verduras.
Os cinco menores, Tata, Jayme, Belinha, Zezé e Renato, vivendo nesse rebuliço todo, sempre acabavam ajudando em alguma coisa, aprendendo outras, mas nunca pegaram duro no batente. Nosso pai já não ficava muito de olho neles, como ficara com os mais velhos, exigindo que tudo funcionasse na linha demarcada por ele: firme na obediência, no trabalho, no estudo, no respeito. Nada de brincar na casa dos outros. Isso realmente não fazia falta, por causa do bando existente dentro de casa. Com os menores, essas exigências, principalmente o trabalho e a obediência, foram descuidadas.
Nosso pai fora muito enérgico com os mais velhos: com exceção do Paschoal, o primogênito que, em família italiana, é privilegiado, e da Maria Aparecida, boníssima, trabalhadeira e que gostava muito de namorar… Fez uma parte dos estudos no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, de Itu, mas depois continuou-os em São José. Ela e eu, Dida, que tenho o nome da nona Sabatina, trabalhávamos muito em casa. O terceiro, o Modesto e o quinto, abaixo de mim, o Gabriel, apelidado Xará, eram os que puxavam as brincadeiras. Nestas, Modesto sempre quis ser o mocinho, porque ia muito ao cinema. Ele se formou em química industrial. Xará, que trabalhava no armazém com nosso pai, gostava bastante do que fazia, pois parecia que era o único que tinha tino comercial.
Essa era a nossa família, a família da Zelinda. Zezé, quando criança, nunca deu trabalho. Foi uma criança tranqüila, de uma grande candura. Teve a sorte de ter irmãos sensíveis, fraternos e sempre muito unidos. É claro que às vezes saíam alguns tabefes, devidos a alguma impertinência ou um bate-boca qualquer. Mas nós tínhamos de tudo. Éramos muito espertos, vivos, alegres. Víamos nosso pai, assim como nossa mamãe, trabalhando e isso dava segurança às nossas vidas, ao mesmo tempo em que nos enchia de orgulho e nos dava a certeza do amor deles por nós. Assim fomos crescendo.
No andar de cima, que possuía a mesma extensão da casa comercial, o nosso quarto, o das meninas, era muito grande, e, à medida que as duas últimas foram saindo do berço iam para lá. O quarto dos nossos pais também era grande; a sala de jantar possuía uma mesa que, quando aberta, comportava umas dezoito pessoas; lá havia também duas cristaleiras e outros móveis. Num espaço, ao seu lado direito, havia uma cadeira de balanço tipo austríaca, preta, linda, na qual nosso pai descansava depois do jantar. Era nesses momentos que os pequenos, principalmente, gostavam de ficar passando na frente dele, ou de encostarem-se à cadeira, fazendo gracinhas, para que ele, percebendo os aconchegos, os tomasse no colo.
Até jogo de bola improvisado havia naquela sala. Era lá também que fazíamos nossas lições de escola – lembro-me da montoeira de cadernos, lápis e do falatório que enchia os quatro cantos do cômodo. Papai e mamãe não conferiam nossos cadernos nem nos ajudavam nas lições. Como poderiam fazer isso? Papai só verificava nossos boletins. – E olha lá, hem! Ai, ai, ai, ai, ai – dizia conforme via as notas.
Lá em cima, como dizíamos, era o domínio da mamãe. Ela não parava! Botava ordem, punha a gente para trabalhar…
A casa continha ainda mais três dormitórios, que eram dos meninos, uma copa, duas salas de visita, banheiro, cozinha enorme, quarto de costura e de passar roupa, uma despensa e uma área livre com tanque para pequenas roupas, com vasos de flores e trepadeira para evitar a afoiteza das crianças em querer se dependurarem para enxergar o que se passava no quintal, lá embaixo.
As cinco portas da casa se abriam para as sacadas, por sinal muito perigosas para crianças. Na verdade, Belinha foi a única a correr algum perigo ali, enfiando a cabeça num dos espaços vazios que formavam os desenhos da sacada. Foi difícil sair ilesa. Havia duas escadas, uma por dentro, para o andar térreo, outra para o quintal, muito perigosas também para crianças. Apesar de tudo, nunca houve tombo nenhum de escada; pelo contrário, todos eram espertos o suficiente para descer escorregando pelo corrimão.
Zezé via e vivia esse mundo todo.
Embora tomássemos muito cuidado com os menores, Zezé não abria mão de subir nas jabuticabeiras nem de andar na traseira do triciclo, durante um tempão, segurando nos ombros do Renato. Era com ele que ela mais brincava, inclusive de bolinhas de gude. Engraçado que, quando ganhou uma enorme boneca, do Modesto, ela sentiu medo. Mas acabou se acostumando. Gostava mesmo de amarelinha, de “Escravos de Jó”, de pular corda… Depois vieram o bilboquê, o bate-bola, o patinete.
Desde pequena, Zezé sempre gostou de cabelo comprido. Era a mamãe, principalmente, quem fazia suas trancinhas, levantava-as para cima e prendia-as com um laço de fita.
Lá pelos cinco, seis anos, Zezé ia comigo, juntamente com a Belinha e, eventualmente, com a Tata, já com treze anos, ao Jardim do Artese, que ficava ao lado de nossa casa. Eu, com dezessete, dezoito anos, ia até lá para namorar, e levava-as comigo, dependuradas a tiracolo, porque papai não deixava que as filhas mais velhas namorassem enquanto estavam estudando. E o que acontecia? Namorava-se escondido. Esse jardim era uma formosura, com belos traçados, com um monumento, estátuas das quatro estações, muitas plantas e árvores.
Mesmo depois, quando saí da cidade para estudar em São Paulo, elas continuaram a passear e a brincar por lá. Belinha conta que Zezé gostava de se embrenhar pelos fundos do monumento para descobrir o que havia por baixo. Amavam um tamarindo, árvore enorme, e subiam por ela, apanhando as tamarinas. E vinha lá o sr. Paschoal Artese espantando a molecada, porque não eram apenas as duas que se aventuram por ali. O sr. Artese, que cuidava do jardim, também tinha muitos filhos. Ele foi o primeiro socialista que conhecemos.
Íamos muito ao monumento do Cristo Redentor, situado num dos morros mais altos ao redor da cidade, para de lá poder avistá-la inteirinha.
Zezé sempre gostou, e isso não era só privilégio dela, todos gostávamos das festas de São João que papai realizava anualmente, com o mastro figurando os três santos, com fogos, busca-pés, batata-doce e espiga de milho assados na fogueira e com a finalização de uma bateria muito barulhenta.
Zezé, aos sete anos, quando entrou no grupo escolar, resolveu aprender a andar de patim e logo quebrou o pé. Não chegou a perder aulas, porque ia à escola no colo de um dos irmãos mais velhos ou do rapaz que trabalhava no armazém.
Foi nessa idade que fez sua primeira comunhão na matriz da cidade. Zezé amava a dona Cândida, sua primeira professora. Na escola, participava de tudo: das rodas de ciranda, das brincadeiras em geral, dos esportes, das passeatas cívicas.
Nesse período escolar, ela passou a brincar com a Belinha na calçada, ou iam à praça, juntamente com a Tata e o Jayme, o Renato, a Lília e a Lélia, duas amiguinhas gêmeas que eram vizinhas, a Marialva, e filhos de outro comerciante local.
Na nossa família havia uma agitação constante, era muita farra, muita brincadeira, pois tinha gente de todas as idades e saudáveis. Na mesa, principalmente no jantar, quando todos estavam presentes, não podíamos conversar nem farrear. Era nesse momento que tínhamos que ouvir os pegas, as broncas, geralmente sobre os estudos. Nosso pai sabia de tudo o que acontecia com a filharada. Se um de nós risse de quem estava levando a bronca, ele mandava que saísse da mesa. No jantar, comíamos de tudo, nunca havendo qualquer reclamação a respeito do prato que estava sendo servido.
Lá pelos anos de 1950, Pascoalino, o nosso Paschoal, conheceu Maria José Peixoto, professora de Inglês, que tinha escolhido o colégio estadual da cidade, após concurso. Logo ficaram noivos. Isso foi uma novidade de primeira ordem para todos nós – afinal, ia ter um casamento em casa! Ele terminara o Colegial, não continuou os estudos e participava mais no escritório da Firma.
Ouvíamos muito rádio – músicas e jogos de futebol. Nosso pai sempre ouvia os discursos do Getúlio, coisas da Segunda Guerra Mundial. Tínhamos uma vitrola e discos de música da época, além das famosas árias de óperas cantadas pelo Caruso. Papai gostava de Una furtiva lagrima, Nabuco, com aquele famoso trecho que virou Song for Liberty. Ele sempre cantava A Casinha Pequenina, Levanta, Maria, que é dia. Gostávamos de vê-lo lendo jornal, por causa do tamanho das letras.
Apareceram, então, os primeiros livros, como Cidadela, de Cronin, Amor de Perdição, a coleção Tesouro da Juventude, livros do Monteiro Lobato, revistas. Zezé sempre gostou muito de gibis, revista em quadrinhos.
Recebíamos sempre visitas de alguns parentes, principalmente das avós e de algumas tias. Íamos também às suas casas. Nesses momentos é que tínhamos mais contato com os primos.
Zezé já completara seus dez anos; ela se dava bem com todo mundo, participando daquela bagunça geral, mas meio organizada, se é que podemos dizer uma coisa dessas. Corria tudo bem, a vida transcorria dentro da normalidade.
Era dia 13 de julho de 1951, uma tarde como qualquer outra; estávamos todos em casa, de férias. Papai tinha subido para tomar café; eram umas quatro horas da tarde. Quando voltou, depois de uma hora mais ou menos, o farmacêutico veio dar-lhe uma injeção, porque andava meio gripado. Logo a seguir, ele começou a passar mal, foi para dentro do armazém, onde ficavam as sacarias, sentando-se e já sendo acudido. Eu e Tata chegamos a vê-lo nesse estado. Pascoalino chamou imediatamente o médico, mas papai sofrera um infarto do miocárdio fulminante. Mesmo o doutor vindo rapidamente, não foi possível fazer mais nada. Subimos e avisamos mamãe. Ela não chegou a tempo de vê-lo com vida. Só lhe restou abraçá-lo chorando.
“O papai morreu! O papai morreu!” Chorávamos. Vimos a mamãe chorando e gemendo, limpando as lágrimas no avental que estava usando; sentimos aquela pena, aquela dor profunda, aquela tristeza – a gente acabava não vendo nada, era o vazio.
Morreu o seu Gabriel Gervásio, aos 56 anos de idade. A notícia correu pela cidade. Ficamos órfãos de pai. Mamãe ficou sem o marido que a amava.
Não sei o que aconteceu em seguida; sei que ficamos todos em casa, inclusive as crianças, nesse dia e no dia do enterro. Foi uma enorme desarrumação nas nossas cabeças, nos nossos sentimentos, nas nossas vidas. E não sabíamos mesmo o tamanho da desarrumação!
Naquela época os adultos usavam luto, e tudo ficou muito triste. É muito bom a criança não sentir a profundidade da dor pelo desaparecimento de um ente querido, não saber direito o que está acontecendo.
Depois do enterro e decorridos alguns dias, eu não sei o que se passava na cabeça e no coração de crianças de dez e sete anos, como tinham a Zezé e o Renato, respectivamente. Creio que a vida da Zezé ficou muito, mas muito melancólica. Isso porque a Tata, que desde 1949 ficara interna no Colégio Progresso, em Campinas, voltou para as aulas, e a Belinha foi também para o mesmo colégio. Eram as duas irmãs mais próximas da Zelinda. Eu e o Modesto, como já estudávamos em São Paulo, voltamos para lá também. Os menores, o Jayme e o Renato, passaram a ser seus companheiros de brincadeiras. Nessa época, Zezé estava no quarto ano primário e acabou repetindo o ano. Não deve ter sido fácil para ela.
Soube depois que resolvera o problema da morte só aos 40 anos.
Porém, o afastamento das irmãs não durou muito tempo; no ano seguinte da morte do nosso pai, as meninas voltaram para casa, desistindo do internato, que detestavam. Creio que estava ficando difícil pagar colégio interno, e havia um bom colégio na cidade onde vivíamos.
Zezé adorava as festas de Natal e fim de ano – aliás, não só ela, mas todos nós. Nosso Natal, no início, era muito singelo: fazíamos um enorme presépio num canto da sala de jantar e as crianças iam para o quintal pegar pedrinhas, musgos, e todos ajudavam. Tínhamos o sentido do nascimento de Jesus. Depois, quando a coisa foi se sofisticando, com árvore de Natal, as crianças crescendo, tudo foi mudando. Uma das lembranças da Zezé que ela gostava muito era um enfeite de árvore de Natal, cujas luzinhas tinham o formato de uma velinha, do tamanho de uma seringa, e por dentro do vidro agitava-se uma água colorida. Era realmente muito bonito. Ela amava receber e abrir seus presentinhos.
Nossa educação religiosa começava quando fazíamos a Primeira Comunhão. E os mais velhos iam passando alguma coisa para os pequenos. Todos fomos batizados, crismados e fizemos a Primeira Comunhão. Papai fazia questão de que fôssemos à Missa de Ramos. Tínhamos que levar umas folhas enormes de palmeira para serem bentas. Ele respeitava muito a Sexta-feira Santa. Igreja, só da Padroeira, na Aparecida. Nossa mãe sempre foi muito religiosa, e seu exemplo, seu trabalho sempre nos influenciaram muito. Era muito dedicada. Somente depois que papai faleceu é que mamãe passou a nos levar à missa, aos domingos bem cedo. Naquela época os Missionários iam às cidades revigorar a fé dos cristãos e nós sempre participávamos dos sermões. Outra ocasião de mais fervor religioso era na Semana Santa, com o Sermão das Sete Palavras e as outras cerimônias. A Zezé viveu tudo isso.
Pascoalino passou a ser o gerente da firma e se casou no fim do ano de 1951.
Zezé acabou o grupo escolar, e aos doze anos foi para o Colégio Estadual “Euclides da Cunha”, cursar o ginásio, por sinal um bom colégio nessa época.
Todas aquelas brincadeiras infantis desses nossos irmãos menores deram lugar a passeios pela praça central e aos namoros; depois da morte de papai, havia liberdade para ir à casa de amigos, assim como eles vinham à nossa casa; praticávamos esporte, íamos muito ao cinema, gostávamos muito dos “espetáculos” dos circos, que frequentemente apareciam pela cidade.
E, por falar na cidade, gostávamos muito de São José do Rio Pardo. Além da Igreja, que fazia parte do quarteirão onde se localizava o jardim central, com suas calçadas largas, por onde fazíamos os nossos passeios, logo no começo da noite, havia os clubes e, o mais importante, a Herma Euclides da Cunha. Lá há um casebre onde ele, ao mesmo tempo em que escreveu parte de Os Sertões, projetou a ponte sobre o Rio Pardo, em 1901. E, além disso, tínhamos uma Estação da Estrada de Ferro da Mogiana que, por muito tempo, foi nosso único meio de transporte para Campinas e São Paulo.
Uma vez chegou à nossa cidade o Circo Irmãos Almeida – a Belinha se apaixonou por um deles e a Zezé pelo outro. Parece que o caso da Zezé foi mais sério, porque ela queria largar tudo e ir trabalhar no circo com ele pelo mundo afora.
Havia o Colégio Santa Inês, dirigido por freiras, onde ensinavam alguns cursos e a Belinha e a Zezé começaram a aprender piano.
Maria já namorava o Hanna Saliba Hanna havia algum tempo. Ele era de uma família libanesa, também numerosa. Terminara o colégio científico, ia fazer Química, mas houve o segundo casamento da família. Casaram-se em maio de 1953, passando a morar lá mesmo em São José do Rio Pardo.
Há boas recordações de passeios a Olaria, onde moravam nossa avó materna, a nona Mariana, que morreu em 1960, aos 86 de idade, nossas tias e nossos primos. Ficaram boas lembranças, lembranças ingênuas, amorosas, saudosas. Eles eram muito bons. Nossas tias, uma delas exímia bordadeira de crivo, elas nos ensinaram, sem intenção nenhuma, uma das coisas mais importantes para nossas vidas: a humildade.
Por parte da família de nosso pai, a presença mais marcante foi a da tia Rosina. Era ela quem “pescava” a gente para a Primeira Comunhão. Nós gostávamos muito dela e ela de nós. Era muito alegre. Ela, como a mamãe, sabia dar boas gargalhadas. Essa amizade perdurou por muito tempo, até quando morreu, em maio de 2000, dias depois que perdemos a mamãe.
Essas recordações faziam parte do envolvimento afetivo da Zezé com nossos parentes. Ela gostava muito deles todos.
E logo depois, na nossa família começaram a nascer os netos, os nossos primeiros sobrinhos: Ana Maria (1952) e Luiz Eduardo (1954) filhos do Paschoalino e da Maria José; Lorette (1954) e Maria Cristina (1957), filhas da Maria e do Hanna.
Na adolescência da Zezé, houve outro sobressalto, não só para ela como para todos nós, porque afetou a família toda. Ocorreu a falência da casa que papai nos deixara. Perdemos tudo. Isso aconteceu em 1957. A Zezé tinha dezesseis anos quando se realizou a mudança para Campinas, no primeiro trimestre desse ano. Nossa mãe veio com o Xará, a Tata, o Jayme, a Belinha, a Zezé e o Renato.
Tiveram que começar tudo de novo, como se fosse uma vida nova. No começo foi muito difícil. Mas estavam com a alma impregnada de um passado tão próximo e tão cheia de amor, de vida, de boas experiências, que isso os sustentava, juntamente com a fortaleza daquela mãe que tínhamos.








Que emoção e que alegria para nós, que tanto amamos a Zelinda e que admiramos tanto sua família, tomar contato com essas fotos históricas. A Zelinda sempre foi encantadora! Basta olhar para ela nas fotos, seja quando criança, seja quando adolescente, para conseguir vê-la na fase adulta, na sala de aula da PUC, com o mesmo olhar sonhador e a mesma expressão meiga e carinhosa que toda a vida a acompanharam.
Como ex-aluna e amiga, só posso agradecer à família pela oportunidade de conhecer um pouco mais dessa pessoa inesquecível que foi e que é Zelinda Fávero Gervásio.
Ainda antes de abrir o blog pensava comigo: por que será que gosto tanto de ler biografias e livros de memórias. Um retrato da vida espelhada, de uma humanidade partilhada, alegrias e dores comuns: tudo isso aparece retratado na vida que “experimentamos” ao nos espelharmos nas vidas que passam pelos nossos olhos. E abri o email e o blog. Ai a gente sente a maravilha do viver: em tudo as nossas histórias parecem iguais. E, no entanto, são diferentes. Experimentamos o comum, no melhor sentido da palavra, com um toque diferente, que torna a vida uma aventura maravilhosa. E mais, nos sentimos fazendo parte de uma humanidade comum. Ai vem aqueles com ficamos próximos por sentimentos, tarefas comuns, e solidariedade em dores e alegrias. Como faz sentir a Zelinda tão próxima em realidades vividas aparentemente tão distantes!!!