Eu, Anna Valéria, sou uma das sobrinhas da tia Zezé, da tia Zê, da Zê.
Considero-me uma pessoa privilegiada por ter vários familiares que me ensinaram, seja pelo exemplo ou pelas conversas, certos valores éticos e morais que me orientam até hoje, permitindo-me ser uma pessoa “centrada”, apesar das radicais mudanças que ocorreram nestes últimos tempos, especialmente quanto ao tipo de relacionamento que as pessoas estabelecem umas com as outras, na convivência em sociedade, hoje em dia.
Tenho várias recordações ótimas de minhas queridas tias, cada uma com suas qualidades e seus defeitos, seus gestos, sua postura, seus ensinamentos, pois todas foram tias-professoras para seus(suas) sobrinhos(as).
A lembrança da tia Zezé, talvez por ela ter exercido certo espírito de liderança entre as demais pessoas da família, ainda é muito viva para todos os seus familiares.
Como criança, eu a via como uma tia alegre e festiva, que adorava levar a mim e aos outros sobrinhos para passear e curtir as coisas boas da vida. Ela adorava nos presentear e acertava sempre na escolha dos presentes que dava. Ela era também a professora querida da Holambra e eu me orgulhava de ser “a sobrinha da querida professora”, quando me aventurava a acompanhá-la em suas aulas por lá. Talvez a relação positiva que sempre tive com o conhecimento e os estudos tenha-se dado em parte pela influência de minhas tias professoras, uma delas a Zezé. Com elas aprendi que estudar e conhecer as coisas do mundo pode ser muito prazeroso e divertido.
Como adolescente, eu a via como uma mulher muito elegante, bonita, vaidosa, bem-humorada e gentil. Todas as suas sobrinhas, quando se encontravam na enorme casa da vó Anita durante as férias, cobiçavam as roupas da tia Zezé, seus sapatos e bolsas, suas maquiagens e “écharpes”, das quais ela gostava muito. Brincávamos de ser adultas com as coisas dela e assim éramos treinadas para crescer nos espelhando nos seus hábitos e costumes de mulher bem feminina e também de profissional competente, pois a tia Zezé era assim: tentava ser eficiente em tudo que fazia, pois fazia com envolvimento, dedicação, empenho e com boa dose de otimismo e alegria.
Ela nunca esmorecia fácil e isso a ajudou a enfrentar, por anos, uma doença que foi minando suas energias, a ponto de fazê-la deixar de ser a minha querida tia Zezé.
Como adulta, eu acompanhei a evolução de sua escalada profissional, tão realizadora para ela, e como médica oncologista, pude participar da pior fase de sua vida, desde que teve o diagnóstico de um câncer que foi envolvendo suas glândulas, uma a uma, e impondo-lhe condições de vida cada vez mais limitadas. Foi extremamente doloroso, para mim, acompanhá-la como sobrinha/médica, mas ao mesmo tempo eu sentia que a minha participação nessa fase de sua vida era muito importante para ela.
O tumor carcinóide que Zezé teve era especial como ela: sua evolução não se encaixa em nenhuma das síndromes de “múltiplas neoplasias endócrinas” que conhecemos. Ele foi implacável, apesar do cuidado de todos os cirurgiões e demais médicos que a acompanharam, a quem ela sempre fazia questão de agradecer, lembrando-lhes de que ela tinha verdadeira admiração por todos eles, pelo cuidado e pela competência que demonstravam ter com ela. Como era doença muito rara, pouco havia na literatura médica sobre novos tratamentos que pudessem reverter ou mesmo curar sua moléstia.
Acho que fui a última pessoa da família que viu a tia Zezé com vida, na UTI do hospital, para onde eu pedi que a transferissem.
Até hoje sinto não ter podido ficar com ela mais tempo do que fiquei, pois, como médica, sabia que lá era o lugar para onde ela deveria ir naquele momento, mas, como sobrinha, era fácil ver a falta de aconchego de uma UTI nessas horas. Torci para que tudo durasse, dali para frente, muito pouco, e foi o que ocorreu.
Muito da tia Zezé ficou em seus familiares. Dessa forma, sua presença ainda é marcante entre nós. Como sobrinha, tenho a ressaltar que serei sempre grata por tudo que ela deixou de bom em mim. Tenho certeza de que as pessoas da família sentem o mesmo e, assim, acredito que, de alguma forma, o espírito da Zezé continua vivo em cada um de nós.
Anna Valéria Gervásio de Britto