
Zelinda na Torre Eiffel em Paris – 1995
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Este blog foi criado para manter viva a memória de Zelinda Fávero Gervásio.
Quem entrar nele verá que, aparentemente, ela foi uma criatura igual a qualquer outra, sem condecorações ou grandes triunfos.
O que a distinguiu é que Zelinda viveu a vida como um presente, e fez dela um presente para os outros, como disse seu querido amigo e colega de profissão, o padre Benedetti. Ele mesmo, na missa de sétimo dia de seu falecimento, na Capela da PUC-Campinas, pediu que conservássemos sua memória.
Além de dedicar sua vida ao ensino e à Universidade, à administração de um Instituto, Zelinda mantinha uma intensa atividade social, familiar, religiosa, mostrando-se um ser humano excepcional, muito à frente de seu tempo.
Ela nunca desistiu de si mesma e descobriu o grande espetáculo que é a vida. Sabia que não era a figura mais importante; no entanto, dava aos outros a grande importância que acreditava que todos mereciam.
O primeiro olhar que Zelinda teve do mundo, quando deparou com ele, deve ter sido radioso, iluminado, pois estava cercada de gente carinhosa; isso persistiu por toda a sua vida em forma de alegria, de fé, de visão de mundo. E é assim que ela sempre foi: alegre e confiante na vida e nas pessoas. Foi sempre uma criatura amorosa.
Zelinda possuía uma enorme força de integração espiritual. Ela buscava e encontrava Deus em todas as coisas. Eu acredito que ela passava por um processo humano e espiritual bastante elaborado e tendia para uma unificação de sua vida, algo próprio do adulto maduro, que é a unificação com Deus.
Seu falecimento ocorreu em 23 de maio de 2005.
Confira os momentos importantes da vida dessa pessoa lutadora e grandiosa, utilizando a coluna ao lado.
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De fato, durante o tempo em que, na qualidade de “sobrinho” postiço da Zezé (como chamávamos Zelinda), o que mais me chamou a atenção naquela figura marcante e radiante, era o seu entusiasmo pela vida. Não me lembro, em todos aqueles anos, ter visto tia Zezé mal humorada ou tristonha. Evidentemente, como qualquer ser humano, ela devia ter seus altos e baixos, mas dificilmente deixava transparecer. Mesmo nos momentos mais difíceis, quando era consumida pela estranha doença, parecia sempre disposta a uma observação espirituosa, como que a confortar aqueles que a cercavam. Achei esse blog muito legal no sentido de resgatar a manter viva a memória dessa pessoa extraordinária.
Victor
As aulas da Zelinda
Lúcia Helena Lahoz Morelli
O ano era 1979. Tudo era novidade para jovens de 18 anos, que chegavam de várias cidades do interior de São Paulo e de outros estados. Havia alunos do Mato Grosso, de Minas, do Rio de Janeiro, da Bahia, e havíamos nós, os “caipiras” do interior de São Paulo, fascinados por uma cidade que considerávamos verdadeira capital, deslumbrados pela PUC e por tudo o que se descortinava à nossa frente em termos de conhecimento, informação…
Informação: palavra mágica; queríamos ser jornalistas. Levar informação. Nem todos desejavam isso pelas mesmas razões. Nem todos tinham a mesma ideologia. Alguns estavam lá apenas em busca do diploma – ou porque já exercessem a profissão ou porque tinham o destino traçado: no futuro, administrariam as empresas do pai, e para tanto era bom ter o diploma. Mas outros, como eu, tinham um sonho: transformar o mundo através da palavra. Ser a voz dos que não tinham voz. E era a esses, principalmente, que a professora Zelinda encantava, fascinava, hipnotizava. Porque era essa a importância que ela dava ao curso de Jornalismo. Era isso o que ela mais ressaltava e era disso que ela nos conscientizava em suas inesquecíveis aulas. Era imensa a nossa responsabilidade social. Éramos, ou deveríamos ser, “guerreiros em busca da verdade”. Quando saíssemos das redações, bloquinho e gravador em punho, deveríamos, antes de qualquer coisa, pensar quantas pessoas seriam beneficiadas com as notícias que levaríamos a público; que injustiça social estaríamos combatendo com aquela matéria; que verdades passaríamos nas entrelinhas do nosso texto, naquele momento em que ainda a sombra da ditadura nos atormentava. Outra lição da professora Zelinda: o jornalista não devia nunca, em circunstância alguma, pretender ser ele mesmo a notícia, ou mais importante do que o fato. Ele tinha que ser humilde. Humilde para perguntar, humilde para reconhecer sua ignorância, humilde para não se melindrar, humilde para saber que a figura central da entrevista era o entrevistado, e nunca, jamais ele. Com humildade e espírito guerreiro, seríamos, sim, os transformadores da sociedade.
A professora Zelinda acreditava em seus alunos; nós sonhávamos em mudar o mundo e ela sonhava conosco. Não nos desiludia. Tendo vivido mais do que nós, ela tinha o direito de já não acreditar nos nossos sonhos. Mas ela acreditava. Acreditava, incentivava, apoiava. Sonhava junto. Vibrava. Queria que vibrássemos. Era nosso momento de acreditar, de sonhar, de desejar, de lutar. Era “agora ou nunca” – se não sonhássemos aos 18 anos, ela sabia que não sonharíamos nunca, e ela queria que sonhássemos, que vivêssemos nossa juventude em plenitude, com tudo o que a juventude traz de esperança, de fé, de crença e de generosidade.
E por isso a sala estava sempre lotada quando a aula era da professora Zelinda. Alunos havia que, quando terminava a aula, em vez de aguardarem pelo próximo professor, saíam atrás da professora Zelinda, acompanhando-a até a sala em que ela entrava e assistindo à sua próxima aula para outra turma…
Essa era a professora Zelinda. E por tudo isso ela marcou as nossas vidas, e marcou para sempre. Como uma fada, passou por nós e eternizou-nos a vontade de nunca desistir da luta, de nunca deixar de ser “guerreiro”, de nunca deixar de ser sonhador. A professora Zelinda fez com que permanecesse em nós para sempre um coração de estudante. Obrigada, mestra!
Eu sou da safra da PUC dos anos 80. Década bem conturbada, não só no Brasil, mas no mundo. Enquanto expandiam-se os preceitos neoliberais, com o apelo para a abertura dos mercados, do descobrir das vantagens da telemática, caía o Muro de Berlim, o muro da vergonha…
No Brasil, vivíamos o caos da inflação, o medo do desemprego, e de outros fantasmas como uma possível retomada do militarismo. Nas aulas da PUC eu sentia os ecos deste movimento espalhado, algo que inquietava e ao mesmo tempo nos estimulava a olhar para o futuro. E a Professora Zelinda, uma mulher muito elegente, sempre impecável na plástica, não poupava beleza também na preparação e apresentação de suas aulas. Nunca esquecerei que foi Zelinda a primeira pessoa a me falar sobre “aldeia global”. Moderna, dedicada, dinâmica, competente…Tantos adjetivos que somados não definirão o caráter e a figura humana desta grande professora e figura humana: Zelinda.
Saba e todos/as que tiveram esta bela iniciativa de recuperar a memória e tudo de bom
Estou numa idade interessante. Pois já aprendi que tudo vai passar. As coisas todas ruins, boas, grandes ou pequenas, não importa nada, tudo vai passar.
Assim importa o quanto a gente ama, e também o quanto somos amados.
A Z amou e foi amada. E amou e foi amada pela Vida. E por mim. E pelos que a conheceram.
Deus reservou um lugar bem lindo pra ela. E um dia esta saudade que eu sinto vai passar. Mas aí estaremos juntos no Paraíso e vamos cantar, sorrir, conversar…
Até mais querida Z…
A professora Zelinda faz lembrar Pe. Vieira, no “Sermão da Sexagésima”: “O estilo há de ser muito fácil e muito natural. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem, e tão alto que tenham muito que entender nele os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura, e o mareante para sua navegação, e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever, entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem”.
Disse ainda no discurso que “a tarefa do professor é proporcionar ao aluno a possibilidade de dialogar com o real, intermediando a relação dele, aluno, com o mundo, objeto do aprendizado”.
Por isso, o papel do professor é de simples mediação, como na metáfora precisa descrita por Marilena Chauí, no artigo “Ideologia e educação”, publicada na Revista Educação e Sociedade, no 5, jan. 1980, p. 39:
“O professor de natação não pode ensinar o aluno a nadar na areia fazendo-o imitar seus gestos, mas leva-o a lançar-se na água em sua companhia para que aprenda a nadar lutando contra as ondas, fazendo seu corpo coexistir com o corpo ondulante que o acolhe e repele, revelando que o diálogo do aluno não se trava com seu professor de natação, mas com a água. O diálogo do aluno é com o pensamento, com a cultura corporificada nas obras e nas práticas sociais, e transmitidas pela linguagem e pelos gestos do professor, simples mediador”.
A linguagem do professor, portanto, é impregnada de responsabilidade ética, pois constituída de um pré-requisito indispensável, ou seja, o dever-ser para o conhecimento pleno do mundo real e uma ação direcionada para o bem, quaisquer que sejam, ou quantos sejam os destinatários.
Volto a Vieira, em seu “Sermão do Mandato”, pregado em 1645, um dos mais formosos da língua portuguesa, para dizer que é preciso amar a ética, sabendo ser ético, como também é preciso amar a linguagem conhecendo-a:
“Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora, é néscio”,- disse Vieira. “Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito” – prossegue Vieira – “assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu em rigor não é delinqüente; quem, ignorando, amou em rigor não é amante”.
Que bela professora foi Zelinda! Que grande mediadora foi Zelinda! Quantos amantes não despertou e criou porque conhecia. Feliz de quem aprendeu a nadar com a Zelinda para enfrentar as águas turbulentas da vida.
Zelinda,
Sempre alegre e iluminada. Sempre com uma paciência infinita. Um coração maravilhoso repleta de benevolência.
Tive a felicidade de a Zelinda ser minha professora por dois anos a 2ª e a 3ª série. Com certeza ela foi uma mãe para as crianças holambrenses. Com certeza ela cumpriu uma grande missão como educadora.
Zelinda, descanse tranqüilamente e com certeza será muito feliz na próxima existência pelas boas causas acumuladas como educadora.
Lembrando da Zelinda me sinto muito incentivada a lutar por melhores condições de ensino e reverter este quadro de violência nas escolas incentivando a criação de valores para a sociedade visualizando a educação para a felicidade para cada cidadão.
Aos familiares, conte comigo e estarei orando pela felicidade da Zelinda e seus familiares.
Às vezes fico pensando: seria bom saber porque certas pessoas nos marcam. Deixam em nós uma espécie de energia viva que nos move por dentro. Mais que simples recordação, mais que lembrança emocionada. Um espécie de impulso vital. Ter conhecido, ter cruzado na vida com aquela pessoa e ser marcado por algo que fica como uma espécie de “close” vivido que retorna permanentemente nos mínimos detalhes. Para mim a Zelinda é esse acontecimento que nos move por inteiro. Não tenho “closes” de sua vida. Tentei selecionar algum para referir aqui. Vieram tantos e tantos que achei que empobreceria a sua grandeza. Tudo na Zelinda move a gente por dentro. Desperta a vontade de ser bom. Faz a gente acreditar que o mundo será melhor. Que vale a pena estabelecer laços verdadeiramente humanos. Que as pessoas que cruzam nosso caminho sempre tem algo a nos dizer de bom. Tudo isso eu sinto quando me vem ao coração (o que, aliás, nunca saiu dele) a lembrança desse sorriso lindo. A foto de Paris me fascina. Não sei explicar porque. Se tivesse explicação não teria a beleza da pessoa que retrata: Zelinda.
Aquele sorriso (tão expressivo) era a Zelinda. Na sua inteireza, integridade, beleza. Ela nos fez mais felizes. Ela nos faz ser mais felizes. Ela não é uma lembrança. É uma presença, imagem e semelhança daquele que nos criou à sua imagem e semelhança.
Dedicado a Mestra e Amiga Zezé.
Tudo começou em março de 1976 no Anfiteatro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas em uma tarde de sexta-feira, quando Zê/Zezé/Zelinda como gostava de ser chamada se apresentou aos alunos do curso de Educação Artística como a Professora da disciplina de Fundamentos da Expressão da Comunicação.
Neste mesmo final de semana fui para minha cidade natal, São José de Rio Pardo, interior de São Paulo, e não imaginando qual seria minha surpresa: Ao pegar carona com um velho amigo da família encontrei com Zelinda, mas como sempre fui meia “desligada” não a conheci imediatamente, não dando conta de que seria ela mesma, e que a partir daquele momento nasceria uma grande amizade.
- Que saudades de você ! Quantas viagens e aprendizado, não se cansava nunca nos seus ensinamentos e sempre por perto dando conselhos.
Amiga, ainda bem que tive a oportunidade de me despedir de você antes de me mudar para Vitória/ES. ( 02/2005)
Foram 28 anos de cumplicidade, de tão grande nossa amizade que chegou a ser minha madrinha de casamento. Mestra. Amiga, você deixou um vazio tão grande para aqueles que conviveram de pertinho e sabiam quão grande era você como pessoa.
Vitória, 29 de dezembro de 2008
Maria Antonieta Vigorito
( Nêta )
Zê, essa alma generosa
Sabá e Belinha, irmãs de Zé, me comunicaram sobre o blog. Confesso que cada vez que o leio, sinto aquela dor da ausência, da saudade.
Zê (como eu, Rosilei e Zanotti a chamávamos) era a nosso porto, quando nos sentíamos perdidos. Saíamos muito, viajávamos e nesses momentos ela não era mais apenas a professora a quem tanto tínhamos apreço. Era a amiga terna, que tinha o dom de ser dócil e serena, determinada e cúmplice “quando havia uma pedra no meio de nossos caminhos”.
Eu, cidadã cá das Gerais, recebia sempre de Zê palavras de admiração por minha terra. “Minas é um estado de graça”, dizia ela. Então, às vezes fico pensando que ela também se tornou filha desta terra. Filha de coração, que fazia brilhar os olhos, ao olhar para as serras, ladeiras e pedras escondidas por aqui em Passos, quando certa vez veio me visitar e à minha família. Às vezes penso que em nossas montanhas ficou guardado um pouco dos tantos e bons sentimentos de Zê.
Talvez ela seja mesmo filha de todas as terras, irmã de todos os povos de territórios diversos, irmanada que foi pelas lutas e pela dignidade de todas as gentes.
Agora, me pergunto: que medida mostra o valor de um ser humano? Que medida mostra o valor de Zê? Seriam suas palavras ditas durante a sua existência? Ou seriam os seus exemplos, gestos que se eternizam na alma de sua família, amigos e da cidade em que viveu?
Que medida mostra o valor de uma vida? Com certeza, uma alma generosa, sempre pronta para acolher. Com certeza, uma alma terna – eternamente disponível para amar – e para salvar – quando nos sentíamos náufragos.
Que medida mostra a dor de uma morte – quando alguém, como Zê, nos deixa órfãos de carinho, nos deixa órfãos de palavras que eram bálsamo, e de gestos que nos faziam sentir fortes e protegidos?
Não, Zê. Não temos medida que possa mostrar a grandeza de nosso carinho por você, que sempre fora luz e paz. E haveria medida que pudesse mostrar o seu amor incondicional, pronto para abrigar, dar colo e coração a todos nós, a qualquer hora?
Meu Deus, nem mesmo a dor lhe rendera alguma revolta, ira ou descrença. Nada que não fosse a paz que sempre pousou em seus olhos. Nada que não fosse a serenidade que sempre norteou a sua vida.
Seu vôo nos deixou sem ninho, mas fique tranquila, Zê. Inspirados em sua vida e em seu coração, que nos são imensuráveis, continuamos todos aqui, seguindo os caminhos.
Grata eternamente, Zê, por ter sido presença imprescindível. Por ter sido belamente, nosso norte, nosso porto.